
Que bom que a televisão brasileira ainda tem Angélica. Escrevo isso de Lisboa, depois de assistir à estreia da segunda temporada de Angélica Ao Vivo, no GNT, e ficar com uma sensação que há muito tempo a televisão não me provocava: eu conheço essa mulher. Eu cresci com essa mulher. E, de alguma maneira, ela cresceu comigo.
E vou comprar uma briga logo cedo, antes de encarar as ladeiras da Alfama: Angélica é hoje a sucessora natural de Hebe Camargo. Não porque imite Hebe. Deus me livre, porque Hebe só existiu uma. Mas porque Angélica finalmente encontrou a idade, o formato e a segurança necessários para fazer algo que Hebe dominava como ninguém: transformar um programa de televisão numa extensão de sua própria sala.
E que sala, minha filha. Ivete Sangalo, Lázaro Ramos e Dan Stulbach sentados à mesa. André Marques na gastronomia. Aline Wirley, ex-Rouge, comandando a banda ao vivo. E Angélica no meio daquilo sem precisar disputar protagonismo com ninguém. A segunda temporada terá dez programas, agora com 70 minutos, exibidos ao vivo às quintas-feiras, às 22h30, no GNT e no Globoplay.
Aliás, talvez esteja justamente aí a grande novidade: Angélica não precisa mais provar que é Angélica.
Isso muda tudo.
A menina que começou ainda criança, atravessou décadas de televisão e passou por programas infantis, auditórios gigantescos e formatos de entretenimento chegou a uma fase em que consegue fazer o mais difícil diante de uma câmera: escutar. Não existe mais aquela ansiedade televisiva de preencher cada segundo, disparar uma pergunta, correr para o próximo quadro e anunciar o intervalo. Há silêncio. Há reação. Há intimidade.
E intimidade com Angélica não precisa ser fabricada pelo roteiro. Ela está dentro da casa do brasileiro há décadas. O próprio programa parece ter entendido isso. Os convidados têm os celulares “confiscados” durante a atração, há jantar, música ao vivo, brincadeiras e conversa. A própria apresentadora definiu a dinâmica como uma “resenha boa” e disse que o público percebe quando a diversão entre eles é verdadeira.
Foi justamente quando a televisão parou de fazer força que aconteceu o momento mais bonito da estreia.
