
O Brasil paga pelo melhor e recebe um “deserto de ideias”. Carlo Ancelotti, o treinador de seleção mais bem pago do mundo, encerrou a primeira sequência de amistosos depois do fracasso na Copa de 2026 sem responder à pergunta que deveria justificar seu salário: afinal, que futebol pretende fazer a seleção brasileira jogar?
Segundo levantamento do jornal alemão Bild, são 10 milhões de euros por ano. Numa conversão a R$ 5,85, isso representa R$ 58,5 milhões anuais, ou R$ 4,875 milhões por mês. Quase R$ 5 milhões mensais para um trabalho cuja identidade continua difícil de reconhecer.
Ancelotti chegou cercado de uma expectativa monumental, sustentada por uma das carreiras mais vitoriosas do futebol europeu. Havia motivos para acreditar. Sua experiência, seus títulos e sua capacidade de administrar grandes jogadores pareciam oferecer ao Brasil uma saída para a sucessão de frustrações.
A CBF foi além da aposta inicial. Renovou seu contrato até 2030 antes mesmo da Copa de 2026, concedendo um crédito de confiança que, diante da eliminação e da ausência de evolução convincente, ganha aparência de cheque em branco. Agora, a cobrança parece sempre transferida para a próxima convocação.
A chamada super Data Fifa ofereceu três partidas, em vez das duas habituais, para iniciar a reconstrução. Era uma oportunidade de experimentar jogadores, trabalhar movimentos e apresentar alguma direção. O Brasil escolheu enfrentar duas vezes a Austrália e, depois, a Índia.

Houve empate por 1 a 1 no primeiro encontro com os australianos, vitória por 4 a 2 no segundo e goleada por 4 a 0 sobre os indianos. Dois triunfos não apagam a impressão de desperdício. Ganhar da Índia, uma seleção sem expressão no cenário mundial, diz pouco sobre a capacidade brasileira de enfrentar os adversários que realmente decidirão o próximo Mundial.
Não se exige que um amistoso resolva todos os problemas. Exige-se que três jogos mostrem alguma coisa além de alterações na escalação. Testar nomes é parte do trabalho. Construir uma equipe é a parte essencial. Quem ocupa os espaços? Como o time aproxima seus jogadores? De que maneira pretende controlar uma partida? Falta uma resposta coletiva que sobreviva à inspiração individual.
Em cerca de 16 meses no cargo, Ancelotti já teve tempo para deixar sinais reconhecíveis de sua concepção. No entanto, a sensação é a de que distribui as camisas amarelas e espera que cada um encontre sozinho uma solução. É uma imagem dura, mas traduz o desconforto de assistir a uma seleção que reúne talento e não transmite uma ideia clara do que fazer com ele.
O Brasil completou 24 anos sem conquistar uma Copa do Mundo. Recuperar o protagonismo exige mais do que contratar um nome capaz de impressionar na apresentação. Exige trabalho visível dentro de campo. Pelo preço que cobra e pela confiança que recebeu, Ancelotti precisa entregar uma direção. Até aqui, o Brasil comprou a assinatura de um mestre, mas continua esperando o futebol.