quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
A Vida de Mucunã
11/02/2026

“Quem não vive para servir

não serve para viver.”

Na farmácia de Mararupá — hoje São Félix — lá em Mauriti, no Ceará, papai mantinha um cartaz com a frase da epígrafe deste texto. Não era ornamento: era regra de vida.

Estava sempre disposto a qualquer aventura ou desafio. Entre tantas histórias, há a que o fez noivo de Badia. Num exame rápido, quase instintivo, diagnosticou: crise de apendicite. Era urgente operar. Levou-a ao Crato, acompanhou a cirurgia — e voltou noivo. Há homens que pedem a mão; ele salvou a vida e tomou a mão como destino.

Hoje, 11 de fevereiro, dia de Nossa Senhora de Lourdes — a santa dos remédios — é aniversário dele. Afilhado de Nossa Senhora da Conceição, representada por Ivanete (futura irmã Margarida), sua irmã, e do Padre Azarias — autor de O Patriarca do Joazeiro, biografia do Padre Cícero.

Ele e a medicina tinham um encontro marcado desde antes da memória dos homens.

Fui à missa por ele. Comunguei por ele.

Saí da igreja, passei pela feira, entre frutas e verduras, e fui ao mercado.

Na saída, ouvi:

— Ele é filho de Seu Irapuan!

Duas senhoras me apontavam. Confirmei, pronto para o costumeiro exame de memória:

— São de Jatobá? Sou mesmo filho de Irapuan.

Responderam:

— Não. Somos do Horebe. Eu sou Ilzanir Martins, casada com Dezin. Esta é minha filha: Verônica Martins.

A mais velha, Ilzanir, completou:

— Essa menina nasceu pelas mãos dele. Nasceu como burro: pernas à frente.

Não me contive. Tenho o que Borges chamava — e eu rejeito o adjetivo — de “abominável hábito do pranto”. Eu o guardo com estima. É herança da minha orfandade materna infantil. Conservo-o como argumento.

Ela continuou:

— Ele me tratou desde o começo de uma gestação difícil e inesperada. Foi ele que insistiu com essa vida.

Saí perguntando nomes, detalhes, datas. Ela narrava como quem fala de uma lenda sertaneja. Parecia personagem da cultura oral — mas era meu pai. Sempre o tive como herói. Ali, éramos dois pontos de vista convergindo na mesma linha.

Antes de se despedir, deixou uma sentença filosófica:

— Hoje as pessoas não têm história, né? Passam pela vida sem anotações. Quando forem falar desta geração, dirão só: nasceu e morreu.

Fiquei lembrando outra história.

Uma moça descobriu-se grávida e tomou um chá que chamou de mucunã — a borra de fuligem do fogão a lenha que se acumula nas telhas. Eu nem sabia que aquilo tinha aquele nome. Tomou para abortar. Adoeceu. Foi levada a ele.

Ele foi direto:

— Você está grávida. Vou falar com seu pai. Vou tratar de você. Quando a criança nascer, ponha o nome de Mucunã. Seja menino ou menina.

A criança nasceu.

Anos depois, já velho, quase senil, contou ter encontrado uma senhora cujo parto fizera. Chamava-se Mucunã. Sempre que o via, ria entre lágrimas. Depois, desapareceu.

Logo em seguida, ele foi à glória.

Era meu pai.

Meu herói de carne e osso — e serviço.

Servindo.

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