
O cenário do futebol brasileiro volta e meia expõe episódios em que a política interna dos clubes traz à tona visões ultrapassadas sobre a própria torcida e a sociedade. Desta vez, o centro dos holofotes foi ocupado pelo conselheiro vitalício Carlos Sadi — pai da jornalista Andréia Sadi e sogro do apresentador André Rizek —, que viu seu nome virar o assunto do momento após declarações abertamente elitistas e preconceituosas durante uma transmissão.
O que ele disse
Ao analisar as disputas internas e criticar a composição política atual do clube, Carlos Sadi — que era cotado para assumir a vice-presidência na chapa de oposição — não economizou em termos preconceituosos:
Afronte ao rival e à periferia: Declarou que o São Paulo teria “perdido o glamour” e disparou: “Se eu não tivesse glamour, eu ia torcer pro Corinthians e ia pra Itaquera. Eu não ia morar no Morumbi, desculpa. Eu sou mesmo elitista.”
Preconceito social: Ao criticar a entrada de novos grupos na estrutura do clube, disse que o São Paulo havia colocado o “baixo clero pra trabalhar” e fez uma comparação pejorativa: “Você casou com a mulher de Paraisópolis, velho, e a família inteira tá morando com você.”
Desprezo a trabalhadores e conselheiros: Referiu-se a conselheiros mais velhos comparando-os pejorativamente aos “caiçaras que trabalham pra mim no Guarujá” e insinuou que o grupo de situação elegeria pessoas simples para controlar o conselho em troca de “dois pães com mortadela”.
A repercussão e o “pedido de desculpas”
A repercussão negativa foi imediata e avassaladora. Além da indignação de são-paulinos, corintianos e torcedores de todo o país, a fala gerou enorme mal-estar político. Pressionado, a liderança da oposição desautorizou as declarações e estuda retirar Sadi da composição da chapa.
Diante do desgaste, o conselheiro publicou uma retratação alegando ter sido “mal interpretado”, afirmando que foi um “equívoco”, que “o mundo mudou” e que apenas pretendia defender a grandeza histórica da instituição.

O erro imperdoável
A tentativa de classificar a fala como mero “mal-entendido” ou “falta de jeito com as palavras” não apaga a gravidade do episódio. Trata-se de um erro estrutural e imperdoável por dois razões fundamentais:
- Desprezo pela essência popular do futebol: Ao usar bairros populares e rivalidades esportivas de forma pejorativa, ele escancara uma visão preconceituosa que tenta higienizar o esporte e afastar o torcedor das decisões do clube.
- Soberba de gabinete: Revela que, para além da imagem institucional moderna que os clubes tentam passar, ainda existem dirigentes e conselheiros imersos em uma bolha de privilégios, tratando o patrimônio do futebol brasileiro como um clube privado de elite.
É uma postura desastrosa que mancha a imagem de qualquer projeto político e deixa uma marca registrada que a arquibancada jamais esquecerá.
