Lendo Terra dos Homens, encontro a frase lapidar de Antoine de Saint-Exupéry que usarei para definir Abelardo Jurema Filho. “Nada se diz de essencial a respeito do Homem se procurarmos defini-lo pelas qualidades humanas”, escreveu.
Quando retornou às livrarias com a terceira edição do “Cesário Alvim 27, Histórias do filho de um exilado”, me acorre esta expressão do escritor francês, porque desejamos prestar uma homenagem ao pai na pessoa do filho. Faço também essa observação por ocasião das celebrações dos 50 anos de atuação na Imprensa.
Inicialmente no Rio de Janeiro, em estágio na redação do Jornal do Brasil, e depois em João Pessoa, nos anos de 1970, onde exerce com denodo, o jornalismo social. Abelardinho, tornou-se um catador de notícias que ajudam na construção da vida sadia em sociedade.
O livro, em terceira versão ampliada, é um testemunho cadente da vida pública de seu pai, com testemunhos vividos e escutados nas conversas ao redor da sala.
Ministro da Justiça em um período de efervescência política antes do golpe militar de 1964, Abelardo Jurema, seu pai, esteve no foco dos acontecimentos que depuseram o presidente João Goulart. Menino de calças curtas, Abelardinho pouco entendia o que se passava. Mais tarde, afastado da convivência paterna, começou a perceber os motivos da deportação dele.
Chegando em meados da década de 1970 para residir na cidade de João Pessoa e atuar em jornais, coincidentemente quando eu também dava os primeiros passos pelas redações, à distância, seguia seu trabalho de repórter que agitava as rodas de conversas da alta sociedade. Vivendo com ardor nota escrita, documentava a vida da cidade.
Os tempos passaram. Sempre nos cruzamos os umbrais das redações, em momentos de espiritualidade nos eventos do Encontro de Casais com Cristo da Catedral-Basílica Nossa Senhora das Neves e, de modo constante, na nossa Academia Paraibana de Letras, onde somos acadêmicos.
Uma amizade de páginas esparsas, sempre com o mesmo espírito de fraternidade mútua, florida de reciprocidade e gestos profundamente humanos como se refere o pensador francês.
Nesta crônica de saudade, recordo do primeiro encontro com seu pai, registrado em outro texto. O encontro ocorreu em uma tarde de sol ameno no escritório que Gerardo Rabelo tinham nas proximidades da Academia Paraibana de Letras, na Rua Duque de Caxias.
Quando menos espero, chega a passos lentos um senhor de cabelo como algodão, paletó branco e suspensório escuro, logo reconhecendo quem seria.
– Este é o ministro Abelardo Jurema -, falou dana Adylla Rabelo, mãe de Gerardo. Cumprimentei-o com a devida reverência, e na distância para a conversa cerimoniosa, contemplava aquele que conhecia de fotografia, de narrativas em livro e de notícias de jornais.
Na época dos entreveros políticos, residindo no sítio, em Serraria, muitas vezes escutava conversas na bodega de papai sobre o ministro paraibano que tinha sido mandado embora do País, assim como outros integrantes do governo de Goulart.
Voltando a percorrer as páginas do livro que chegou às livrarias em terceira edição, com primoroso acabamento gráfico da Editora da UFPB, percebemos o trato de Abelardo aos temas. A Rua César Alvim e as lembranças são personagens marcantes do livro, importante na literatura de memórias.
Ambos, pai e filho, absorveram a aristocracia do espírito e do caráter sem perder a serenidade diante dos golpes sujos e sem limite praticados pela República brasileira.
A Rua de Abelardo
17/01/2026
sobre
José Nunes
José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).