A madrugada ainda estava com bafo de sereno quando os celulares começaram a urrar feito bode amarrado em dia de feira. O alerta assustou tanta gente que teve quem pulasse da rede achando que era enchente, terremoto ou alguma desgraça anunciada.
Na tela dos aparelhos apareceu uma palavra estranha: misantropia.
Na Rua do Cancão, ninguém sabia o que era. Uns pensaram em doença, outros em praga, míssil ou nome de remédio. Foi então que surgiu Expedito Ferreira, homem sabido e dono de explicações improváveis.
— Não se alarmem — disse ele. — Misantropia é coisa de fascista que vive no Cabaré de Estrela e Pedro Caboclo, tomando cachaça ideológica e falando mal da humanidade.
A explicação só aumentou a confusão.
Expedito então esclareceu:
— Misantrópico é quem não gosta de gente. É o sujeito que acorda brigado com o mundo, evita conversa e torce para a fila aumentar. Antigamente, isso se curava com uma noite no cabaré, duas doses em Pedro Caboclo e uma boa prosa com Estrela.
A turma caiu na discussão. Uns diziam que era coisa de hacker; outros, assombração tecnológica. Dona Sinhá apareceu com uma vela acesa e sal grosso atrás do roteador. Expedito aprovou e ainda recomendou arruda perto do carregador.
No fim, descobriram que o alerta nacional falava apenas de uma palavra complicada. Seu Mundico resumiu:
— Então tocaram a sirene só para avisar que existe gente que não gosta de gente?
— Exatamente — respondeu Expedito.
— Pois isso aqui nunca foi novidade.
E assim, o que parecia o fim do mundo terminou em conversa de calçada, gargalhada e filosofia de bodega. Porque na Rua do Cancão até o apocalipse passa primeiro para tomar um café e confirmar se é verdade.
