quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
A malandragem que nos envergonha: da Lei de  Gerson a Andreas Pereira
11/02/2026

Demorei a entrar neste assunto, mas a repercussão da atitude de Andreas Pereira no último Derby foi tamanha que se tornou impossível ignorar. Mais do que um lance de jogo, o episódio me provocou reflexões sobre essa persistente “tática da malandragem” que, infelizmente, o brasileiro não esquece e, por vezes, ainda tenta justificar.

A memória do nosso futebol é implacável para os erros éticos. Em 1976, o craque Gerson protagonizou um comercial de cigarros que, sem querer, batizou uma das nossas maiores chagas sociais: a “Lei de Gerson”. O slogan “gostar de levar vantagem em tudo” virou sinônimo de um Brasil que aceita a trapaça se ela for disfarçada de esperteza. Gerson carregou esse estigma por toda a vida, arrependendo-se do sentido que a frase tomou.

Décadas depois, Andreas Pereira — um jogador nascido na Bélgica e criado no rigor profissional da Europa — parece ter sucumbido ao pior do nosso “jeitinho”. Ao usar as travas da chuteira para cavar deliberadamente um buraco na marca do pênalti, ele não demonstrou inteligência; demonstrou falta de caráter desportivo. Na Europa, onde o Fair Play é levado a sério, ele provavelmente jamais ousaria tal gesto. Por que fazê-lo aqui? Talvez por acreditar que, em terras brasileiras, a sabotagem ainda seja aplaudida como virtude.

Essa tentativa de burlar o sistema não se limita ao dano físico no gramado. Ela se manifesta também na cultura da simulação, o famoso “cair para enganar”. A própria FIFA já endureceu as regras, determinando que o jogador que finge uma falta ou simula um pênalti deve ser punido com cartão amarelo. Seja cavando um buraco na marca da cal ou cavando uma falta inexistente para ludibriar o árbitro, o objetivo é o mesmo: obter um benefício ilegal. São faces da mesma moeda da desonestidade que o futebol moderno não pode mais tolerar.

O futebol é uma disputa de talentos sob regras iguais. Quando um atleta altera o campo para impedir que o adversário execute sua técnica, ele admite que não consegue vencer no jogo limpo. Chamar isso de “esperteza” é um erro grave. Já passou da hora de entendermos que a verdadeira grandeza está em ganhar com competência. Levar vantagem na marra não é motivo de orgulho; é um atestado de vergonha que mancha a carreira de qualquer profissional.

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