domingo, 15 de fevereiro de 2026
A maior e a menor cantoria
15/02/2026

Cantoria, antigamente,

era o show do meu sertão.

Dizem que a maior cantoria da história aconteceu na Rua do Prado, em Patos, na Paraíba, entre Romano de Mãe d’Água e Inácio da Catingueira. Não havia gravação, nem papel, nem máquina. Houve povo. Quase três dias de cantoria. Cada assistente guardou o que pôde: um verso, uma sextilha, um martelo. Depois, juntaram os pedaços decorados e recompuseram o acontecimento. A maior cantoria não foi gravada: foi lembrada. Assim entrou para a história, recomposta pela memória coletiva, como registram estudos e relatos da tradição oral paraibana.

Por pergunta pueril minha — quis saber da menor cantoria possível — Orlando Tejo não explicou: inventou. Minha infantilidade diante dele era como a de um menino em frente a Deus. Eu já deixara de ser fã para ser devoto.

Então ele disse que foi em Caruaru, na casa de um Seu Dudu, dono da casa e promotor do evento — homem que abriu a sala, passou o café e convocou os cantadores. Naquele dia houve uma tempestade. Choveu tanto que ninguém quis sair de casa. A cidade recolheu-se. Não foi ninguém. Ainda assim, a cantoria aconteceu. Ficaram apenas dois cantadores — Canhotinho e Zé Duda — e o anfitrião que os chamara.

A cantoria durou uma glosa apenas, cantada à viola de Zé Duda, na atribuição de Orlando Tejo, feita ali mesmo para satisfazer minha curiosidade:

Canhoto, cadê o povo

Da nossa Caruaru?

Que estamos nós dois na sala

Cantando pra Seu Dudu.

Eu pra tu ele e eu

E tu pra eu, ele e tu.

Ali mesmo começou e acabou. Não houve réplica, nem sequência, nem reconstrução posterior. Houve apenas o instante completo: quem promove, quem canta e quem escuta — ainda que tudo isso coubesse em três pessoas e um único verso.

A maior cantoria precisou de muitos para existir depois.

A menor precisou de um poeta para existir inteira.

Entre a multidão que guarda e a imaginação que inventa vive a arte da cantoria: quando o verso é grande, o povo sustenta; quando é mínimo, basta alguém abrir a casa — e a viola responder.

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