João Pessoa, sexta-feira, 11 de setembro de 2026
A indireta de Carlinhos Maia para Anitta
11/09/2026

Eu estava nesta segunda-feira nublada dentro de casa, no Cosme Velho, tomando meu suco de pera e tentando entender se o Rock in Rio finalmente tinha acabado para mim, quando chegou um vídeo de quase oito minutos de Carlinhos Maia. Dei play achando que encontraria mais uma opinião sobre bets.

Quando terminou, eu já tinha ouvido falar de Globo, Carnaval, bicheiro, futebol, Instagram, monopólio publicitário, influenciadores, sororidade, mulheres que se detestam, “cobras” e uma tal coroa que ninguém estaria disposto a entregar.

Então vamos fazer direito, porque o assunto de Carlinhos não são apenas as bets.

Carlinhos não citou Anitta em nenhum momento. Isso é fato. Portanto, não existe base para atribuir diretamente as acusações à cantora. O que existe é um discurso carregado de referências que pode ser interpretado como indireta. E talvez a parte mais interessante esteja justamente aí: ele não deu nome, mas construiu um personagem.

“Os mais inteligentes, eles usam de bandeiras pra disfarçar a sua hipocrisia”, afirmou.

É essa frase que organiza praticamente todo o desabafo. Na leitura de Carlinhos, existiriam dois tipos de famosos. De um lado, influenciadores como ele, que seriam “burrinhos” porque falam demais, expõem seus interesses e deixam suas contradições disponíveis para o julgamento público.

Do outro, celebridades que ele chama de “inteligentes”: gente que saberia administrar imagem, discurso, causas e contratos sem revelar o jogo de poder que existiria por trás deles.

E aí entram as bets.

Carlinhos questionou artistas que se posicionam contra o mercado de apostas, mas continuam trabalhando ou circulando em ambientes que recebem dinheiro desse setor. Ele citou especificamente a Rede Globo, argumentando que uma pessoa poderia condenar as bets e, minutos depois, aparecer numa emissora que exibe publicidade de casas de apostas.

“Se você é contra, por que você está na Rede Globo de televisão onde o próximo comercial que passa é de uma bet?”, questionou.

Mas ele não parou na televisão. Carlinhos levou o raciocínio para o futebol, para as plataformas digitais e para o Carnaval. Citou escolas de samba e afirmou que o jogo do bicho estaria por trás delas. A lógica defendida por ele é radical: se determinado artista considera moralmente incompatível promover apostas, deveria também rejeitar os ambientes que recebem recursos dessas empresas.

E aqui existe uma diferença importante que o próprio discurso de Carlinhos mistura: ser contratado por uma bet não é necessariamente a mesma coisa que trabalhar em uma empresa que, entre centenas de anunciantes, recebe publicidade de uma bet. Mas essa distinção não interessa ao argumento dele. Carlinhos está atacando justamente a possibilidade de alguém estabelecer essa fronteira moral.

“Se você não concorda, não participe de absolutamente nada que seja patrocinado por essas empresas, porque senão há uma concordância indireta”, disse.

Foi então que a live mudou completamente de tamanho.

Porque Carlinhos abandonou a discussão específica sobre apostas e começou a falar de controle de mercado.

Segundo ele, alguns poucos artistas dominariam as grandes marcas brasileiras. Não porque estejam necessariamente errados, ressalvou várias vezes, mas porque seriam mais inteligentes na administração da própria carreira. O problema, segundo sua visão, surgiria quando alguém vindo da internet começa a conquistar audiência e dinheiro suficientes para disputar esse território.

Carlinhos colocou os influenciadores como uma espécie de nova classe de celebridade que ameaça o antigo sistema.

Ele citou o próprio tamanho nas redes e falou de pessoas com 50 ou 60 milhões de seguidores para defender que já não é necessário estar dentro da televisão para conquistar fama, influência ou status. E soltou uma das frases mais reveladoras daqueles oito minutos:

“Você é o futuro. Você não precisa mais estar dentro de uma televisão pra você ser reconhecido, pra você ser famoso.”

A discussão sobre bets, então, ganha outra camada na fala dele. Carlinhos parece enxergar parte das batalhas morais do entretenimento também como batalhas comerciais. Segundo sua interpretação, por trás de determinadas bandeiras haveria uma disputa por contratos, relevância e domínio do mercado publicitário.

“Essas pessoas monopolizam as marcas”, afirmou.

E foi além: “Se alguém começa a brilhar, se destacar, que veio da internet, eles acabam”.

É uma acusação enorme. Carlinhos não apresentou provas nem nomes para demonstrar que artistas estejam efetivamente agindo para destruir carreiras de influenciadores. Portanto, essa parte deve ser tratada pelo que é: a interpretação dele sobre os bastidores do mercado, e não um fato comprovado.

Mas aí aparece a palavra que transforma a live de discussão comercial em fofoca de primeira categoria: coroa.

“Ninguém quer perder a sua coroa de maior ou melhor”, disparou.

Eu parei meu suco de pera.

Porque uma coisa é discutir regulamentação das bets. Outra é dizer que artistas poderosos defendem bandeiras, monopolizam marcas, enxergam influenciadores como ameaça e não querem entregar a coroa. Aí já não estamos mais falando apenas de aposta. Estamos falando de vaidade, hierarquia e sobrevivência no topo da indústria da fama.

E Carlinhos ainda não havia terminado.

Ele disse conviver com essas pessoas há 11 anos e definiu parte desse ambiente de maneira nada carinhosa: “Eu convivo com essas cobras o tempo todo e o interesse delas é pessoal”.

Carlinhos puxou o conceito de sororidade para dizer que, em sua experiência, ele simplesmente não existiria naquele universo.

“Essas mulheres se detestam”, afirmou duas vezes. E acrescentou que elas “só se unem pra derrubar uma a outra”, classificando o meio como “podre” e essas relações como falsas.

É provavelmente o trecho mais agressivo de toda a fala porque ele deixa de discutir empresas, publicidade ou apostas e passa a fazer uma generalização sobre relações entre mulheres famosas. Novamente, não apresentou nomes ou exemplos que permitam verificar a acusação.

E é justamente aqui que a possível associação com Anitta ganha combustível , não como certeza, mas como leitura da indireta.

Carlinhos fala de uma celebridade que teria poder sobre marcas. Fala de bandeiras. Fala de bets. Fala de Globo. Fala de escola de samba. Fala de mulheres famosas. Fala de alguém que não quer perder a “coroa”. E faz tudo isso sem pronunciar o nome de ninguém.

Talvez a frase mais importante da live nem seja sobre bets. É quando ele diz que “não há certo e nem errado. Há inteligentes e há burros”.

Porque esse é o mundo que Carlinhos descreve: não uma indústria dividida entre mocinhos e vilões, mas um mercado em que alguns aprenderam a transformar discurso, silêncio, influência e posicionamento em poder . Enquanto outros, como ele próprio diz fazer, abrem uma live e contam aquilo que deveria permanecer atrás da cortina.

No Cosme Velho, meu suco de pera já tinha acabado fazia tempo.

E fiquei com uma impressão depois daqueles quase oito minutos: Carlinhos Maia começou tentando discutir a hipocrisia em torno das bets e terminou fazendo algo muito maior: uma acusação contra o funcionamento da própria indústria da celebridade brasileira.

Anitta não foi citada.

Mas quando você fala de bets, Globo, Carnaval, marcas, mulheres, poder, cobras e de alguém desesperado para não perder a coroa, não precisa ser especialista em fofoca para entender por que tanta gente começou a procurar a cabeça em que Carlinhos queria colocar esse adereço.

canal whatsapp banner

Compartilhe: