Para Esopo e Fedro, herdeiros do deserto que ouviram as lições dos animais antes que o governo inventasse a lei; com vênias a La Fontaine; e para Jacinto de Tuniquinha, que falava de um tempo em que os bichos ainda tinham voz.
“Então naquele dia clamareis por causa do vosso rei, que vós mesmos escolhestes, mas o Senhor não vos ouvirá naquele dia.”
(1 Samuel 8:18)
No princípio, o lobo acusou o cordeiro de turvar a água. O cordeiro explicou que bebia rio abaixo, entretanto o lobo já tinha sentença pronta:
— “És culpado porque existes.”
E o devorou.
Depois que o lobo devorou muitas ovelhas, as ovelhas, cansadas do medo, reuniram-se e disseram umas às outras:
— “Se não podemos vencê-lo, façamos dele nosso protetor.”
Escolheram, então, um lobo para governar — e, para acalmar o coração, chamaram-no Pastor. Chamaram-no assim porque ele prometeu pasto, e o pasto passou a ser dividido, medido, controlado.
Dessa divisão nasceu o nomos: primeiro o pasto repartido, depois o costume e, por fim, a lei — aquilo que dizia a cada um onde podia pisar e o que podia comer. Pois, entre os antigos pastores, a lei nasceu do pasto, e o governo nasceu de quem o dividiu.
O lobo aceitou o nome e o poder. Cercou os campos, contou as ovelhas e declarou:
— “A liberdade será a ordem.”
E as ovelhas responderam:
— “A ordem é a nossa liberdade.”
Durante um tempo, houve fartura e alívio. Mas o lobo começou a beber primeiro, a dormir sob as sombras mais verdes e a vigiar as que ainda se lembravam dos camposabertos. Chamou isso de proteção. As ovelhas chamaram de lei.
E assim, ao dividir os campos, ao marcar o pasto e ao ordenar os passos do rebanho, o Pastor transformou toda a região. Cada limite que traçava virava risco na terra; cada proibição virava uma pedra fincada no chão.
O lugar inteiro ficou coberto de sinais. E foi assim que aquela terra passou a ser chamada de Vale das Pedras Marcadas: não porque lembrava caminhos antigos, mas porque registrava as marcas do governo. Os animais obedeceram aos sinais — e esqueceram o caminho do rio.
O vale prosperou — e adoeceu. Sem fome, todos perderam o apetite; sem sede, perderam o sentido. O Pastor distribuía de tudo, menos razão. E quem duvidava era tratado como inimigo da felicidade geral.
Até que muitas ovelhas começaram a desaparecer. O Pastor garantia que tudo estava certo: dizia que elas tinham ido para outro universo — que chamou de céu. As antigas garantias tornaram-se apenas formais, e todos passaram a desejar aquele céu. A realidade virou eco das promessas.
Vieram os anos de seca. As represas se quebraram, as frutas sintéticas apodreceram, e os tanques secaram. Osbichos, desacostumados ao instinto, ficaram perdidos.
Uma geração inteira cresceu esperando o retorno das promessas do Pastor. Dividiram-se: uns, crentes, esperavam o milagre; outros, infiéis, queriam agir. Oscrentes chamaram os infiéis de traidores e os expulsaram.
Os expulsos — o lobo livre, o beija-flor, a serpente e poucos outros — acharam, em terras distantes, um novo manancial. Beberam, viveram. Por terem esquecido as antigas marcas nas pedras, nunca mais souberam voltar para ajudar os conterrâneos. A longa dependência lhes atrofiara a memória.
No Vale, os crentes tomaram os ausentes por mortos.Ergueram altares e câmeras, inventaram teorias, disputaram honras e cadáveres. E, sem perceber, começaram a devorar uns aos outros — primeiro com discursos, depois com fome. Chamaram a isso civilização,ciência e religião. E quando a fome terminou, restou apenas a ciência dos números, para registrar o óbito com método e frieza.
Ao fim de tudo, a tartaruga, que observava em silêncio desde o princípio, atravessou o vale vazio e riscou na areia:
“A natureza nos alimentava com sentido.
O Governo nos alimentou com medo.
E aprendemos, tarde demais,
que no governo o medo se disfarça de lei.”
O vento soprou, apagou as inscrições e levou o pó. E o tempo, impassível, esperou que outra espécie voltasse a ouvir a sede.
“Veritatis viribus”
Esta fábula nasceu da observação antiga de que toda forma de governo, cedo ou tarde, aprende a comer o que diz proteger.
É apenas a velha história do lobo e do cordeiro — mas contada do ponto de vista de quem sabe que, antes da lei, havia só o pasto; e, antes do pasto, a liberdade.
