
O mundo do futebol assiste, entre o êxtase e o escândalo, ao renascimento de Endrick com a camisa do Olympique de Lyon. Cada gol, cada arranque e cada drible do brasileiro em gramados franceses não é apenas um grito de liberdade de um talento represado; é uma sentença condenatória para o planejamento recente do Real Madrid e, especificamente, para o técnico Xabi Alonso.
Enquanto a Europa se pergunta como um jogador desse calibre foi deixado “dormindo” no banco de reservas, a crítica esportiva crucifica, com razão, o técnico espanhol. Os números são frios e impiedosos: sob o comando de Alonso, Endrick teve míseros 4% de participação nos jogos. Um desperdício que beira a irresponsabilidade técnica. Alonso preferiu o sistema à individualidade, e agora assiste de longe ao garoto provar que o erro não estava no atleta, mas na prancheta.
Mas há uma camada mais profunda nessa história, que vai além do erro de Alonso e toca diretamente no coração da Seleção Brasileira: a consciência de Carlo Ancelotti.
O italiano, agora comandante da “Amarelinha”, observa o fenômeno Endrick com um misto de alívio e, arrisco dizer, arrependimento. Ancelotti não é Xabi Alonso; ele deu oportunidades ao garoto na temporada passada (cerca de 15% do tempo total). Mas, ao ver o que Endrick está fazendo agora quando tem sequência real e confiança absoluta, é impossível que o velho Carlo não faça um exame de consciência.
Ancelotti é um homem de futebol, sábio e experiente. Ele sabe que, embora tenha sido mais justo que seu sucessor, ele também poderia ter dado mais. Ele poderia ter soltado as rédeas antes. Ao ver a “injustiça” brutal cometida por Alonso, Ancelotti deve sentir o peso de sua própria cautela excessiva no passado. Ele percebe agora que talento geracional não se dosa com conta-gotas. Endrick não é para o futuro; é para o agora.
Essa percepção já reverbera nos bastidores da imprensa internacional. Nos principais jornais da Europa, a presença de Endrick na próxima lista do Brasil deixou de ser tratada como especulação para virar uma certeza de 100%. Para a crítica europeia, Ancelotti precisa fazer isso.
A convocação oficial deve confirmar a presença do atacante para os dois testes de fogo desta Data FIFA nos Estados Unidos: dia 26 de março, contra a França (em Boston), e dia 31 de março, contra a Croácia (em Orlando). Serão nessas datas que Ancelotti, movido por uma espécie de “mea-culpa”, começará a pagar a dívida silenciosa que o futebol tem com o garoto.
O Lyon agradece, Xabi Alonso se explica, e Ancelotti prepara a caneta, decidido a liderar a reparação histórica que Endrick merece.