A prática de ter amantes é tão antiga quanto a própria ideia de casamento. Por séculos, e ainda hoje, a existência de uma relação paralela ao casamento oficial carrega consigo um peso imenso — não apenas o fardo do segredo, mas também o valor simbólico que ela representa.
No imaginário social, ter uma amante sempre foi, para muitos, um sinal de status. Uma prova de poder, virilidade ou influência. Como se a capacidade de manter duas casas ou duas vidas afetivas fosse uma façanha reservada aos que podem pagar por ela. Esse valor, no entanto, é construído sobre pilares frágeis: a mentira, a dupla vida e, muitas vezes, o sofrimento de quem fica à sombra do relacionamento oficial.
A dificuldade em manter esse segredo é imensa. Logística de agenda, contas bancárias ocultas, encontros furtivos e a constante ansiedade de ser descoberto. Não à toa, o adultério é um dos temas mais recorrentes na literatura e no cinema — sua tensão dramática é universal.
Dois Casamentos e a Justiça
A pergunta que fica é: com a mudança dos costumes, essa prática diminuiu? Em tese, a lei e a sociedade evoluíram. A monogamia é a base do casamento civil e, juridicamente, o Brasil não reconhece as chamadas “famílias paralelas”. O Supremo Tribunal Federal já se posicionou contra o reconhecimento de uniões estáveis simultâneas, reafirmando a impossibilidade de uma pessoa manter dois vínculos oficiais ao mesmo tempo .
No entanto, a ilegalidade da bigamia e a rigidez da lei não parecem ter extinguido o desejo ou a prática. O que vemos é uma transformação: o “caso” extraconjugal, antes escondido com mais pudor, agora convive com outros modelos de relação, como o poliamor e o relacionamento aberto, que trazem uma nova camada de complexidade à conversa — deslocando o “segredo” para o “consentimento”.
O que está em jogo hoje parece ser menos o valor de ter uma amante como troféu e mais o valor de uma vida afetiva autêntica. Para muitos, o custo emocional de esconder um amor — ou de manter um casamento apenas por aparência — supera o status que ele poderia conferir.
A prática pode não ter diminuído em números absolutos, mas seu significado mudou. O que era sinal de poder, hoje, para muitos, é visto como sinal de fragilidade ou insatisfação. A conversa, ainda que lentamente, migra do segredo para a honestidade, e da posse para a escolha.
E vocês, leitores, o que acham? Será que a era dos amantes secretos está com os dias contados, ou apenas mudou de endereço? A coluna Sem Vergonha quer saber sua opinião. Escrevam para a gente!