- Oi, João …
- Oi …
Torci o passeio para esta camaradagem de quarenta e dois anos. Mudei de trabalho, de morada, de muitas cogitações e afazeres, mas encontrando-o onde sempre esteve: da porta do Hotel Caxias (até esse hotel fechar) ao vão da banca de bicho, do outro lado do prédio. Sua vida não passou desses dez metros, feito árvore, preso às raízes, respondendo com as suas folhas à passagem dos anos e dos homens. A tudo e todos ele viu passar.
A primeira vez que falei com ele foi num momento em que não havia com quem falar. Nem de quem. Existia muita gente no Ponto de Cem Réis, muito mais que hoje, mas eu não existia.
Acabara de chegar, largado, para uma empresa da qual eu nunca tive a menor convicção: estudar, ser gente. Demandar o Liceu era apenas um pretexto com que eu me justificava para vir pilungar na capital. Estudar, com as suas sintaxes e as suas álgebras, sempre me pareceu difícil, impossível. Tanto que nunca cheguei ao outro lado dos cursos, do ginásio, da datilografia, de nada. Jamais terminei as declinações nem o aprendizado elementar de qualquer ciência ou língua. Gostava mesmo de vagabundar, de tomar fresca e de outros serviços maneiros como ler romance de verdade e, de mentira, ler as mãos disponíveis e sem sorte das mulheres da Silva Jardim.
Quando me acheguei à porta do hotel, do lado da sombra, e dei com negro João, foi ele, naquele burburinho, o único a me ver, a me dar atenção. Perguntou-me se queria engraçar, uma forma de fazer envergonhar-me dos sapatos. Estavam tão surrados e tristes que expressavam a facies que o riso da cara tentava ocultar.
João foi o primeiro olhar verdadeiramente acolhedor no palco que eu acabara de escolher para a vida. E, na verdade, não tinha feito mais que olhar os meus sapatos. Um olhar que me fez sentir notado, conviva inaugural do novo ambiente.
Consegui trabalho perto dele, dez anos à direita do seu ponto de engraxate, outros dez à esquerda, mudando-se as empresas, os jornais, tudo, mas nós, nunca. Ficávamos passando a limpo os que não passavam mais por nós. Tantos e tantos, uma penca todo ano, que se acumulam em multidão.
Ali plantado, sem sair do seu chão ou do seu tronco, como personagem de Meterlinck, era quem mais via os moventes passarem. Uns indo para voltar, outros para sempre, como ele terminou indo.