A transmissão de cargo de Cícero Lucena para Léo Bezerra foi marcada por prestígio, casa cheia e um ambiente cuidadosamente construído de cordialidade. No palco, elogios de parte a parte, gestos de respeito e um esforço visível de demonstrar unidade administrativa. Mas, como de costume na política, o que realmente importa aconteceu nos bastidores.
Cícero repetiu, com aparente sinceridade, o desejo de que Léo faça uma gestão ainda melhor que a dele. Não soou como frase de efeito. Havia ali um tom de quem queria, de fato, sair bem na fotografia da própria sucessão. Léo, por sua vez, correspondeu. Em discurso emocionado, prometeu manter o modelo de gestão e foi além: chamou Cícero de “mestre” e “professor”, reforçando a ideia de continuidade.
Até aí, tudo dentro do script. Mas o dia reservou duas notícias políticas para Cícero — uma boa e outra nem tanto.
A boa notícia veio com a presença de Pedro Cunha Lima. Mesmo fora da disputa por decisão pessoal, ele compareceu e marcou posição. Era o nome preferido de Cícero para compor como vice, e sua presença, ainda que simbólica, teve peso político. Mostra que as portas seguem abertas.
Melhor ainda foi o que veio em seguida. Diogo Cunha Lima, irmão de Pedro, até então tratado como hipótese improvável, surpreendeu. Empresário, distante da política e visto como alguém que poderia recusar o convite, ele reagiu de forma positiva. Disse se sentir honrado com a lembrança do seu nome. A declaração, simples, mudou o ambiente. De uma possibilidade remota, passou a ser uma alternativa concreta. Cícero pode ter encontrado o Cunha Lima que procurava.
Já a notícia mais ou menos — quase ruim — veio de onde menos se esperava: da fala institucional de Léo Bezerra.
Questionado sobre a relação com o governo do Estado, ele adotou o tom esperado. Disse que é amigo de Lucas Ribeiro e que pretende manter uma relação harmoniosa. Nada mais adequado para o momento. O problema não é o que foi dito, mas o contexto recente.
A relação entre Cícero e o grupo do governo estadual esteve longe de qualquer harmonia. Houve rompimento político, tensão e uma sequência de exonerações cruzadas que deixaram cicatrizes evidentes. Não faz tanto tempo assim.
Por isso, a fala de Léo, ainda que correta, levanta uma dúvida inevitável: estamos diante de uma nova fase de convivência ou apenas de uma trégua momentânea, ditada pelas circunstâncias?
A cerimônia mostrou unidade. Os bastidores, como sempre, foram mais sinceros.