João Pessoa, sábado, 17 de outubro de 2026
Checagem do Estadão aponta declaração falsa e imprecisões de Flávio na Globo
17/10/2026 05:45
Redação ON Reprodução

Uma checagem feita pelo jornal O Estado de S. Paulo identificou declarações imprecisas, sem contexto ou enganosas de Flávio Bolsonaro (PL) na sabatina do Jornal Nacional, na Globo. O levantamento do Estadão Verifica também classificou como falsa a afirmação de que não havia suspeitas contra Daniel Vorcaro quando o candidato procurou o banqueiro.

As verificações abrangem temas como juros, dívida pública, estrutura do governo e condenações relacionadas ao 8 de janeiro. O jornal também reconheceu como verdadeiras as afirmações sobre os recordes de feminicídios e de endividamento das famílias, com ressalvas sobre o contexto dos indicadores.

Vorcaro já era investigado

Um dos principais pontos da checagem envolve a afirmação de Flávio de que não havia suspeitas contra Daniel Vorcaro quando o procurou. O Estadão classificou a declaração como falsa: em novembro de 2025, o senador cobrou recursos para um filme quando as suspeitas de crimes financeiros na gestão do Banco Master já eram públicas.

Segundo o levantamento, as conversas registradas entre Flávio e Vorcaro ocorreram entre dezembro de 2024 e novembro de 2025. Uma cobrança feita pelo candidato em 16 de novembro de 2025 aconteceu cerca de três meses após a divulgação de suspeitas de crimes financeiros apontadas em investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Juros fora da conta

Flávio afirmou que o Focus de 2022 projetava juros de 7% e que hoje a taxa está em 14%. Segundo o Estadão Verifica, a declaração é imprecisa: o Relatório de Inflação do Banco Central, baseado nas expectativas de dezembro de 2022, apontava Selic de 8% para 2026.

Já a projeção mais recente citada na checagem indica 13,25% no encerramento deste ano. A comparação exige distinguir a taxa em vigor das previsões para o fim de determinado período.

Dívida exige contexto

Os R$ 11 trilhões mencionados por Flávio correspondem à Dívida Bruta do Governo Geral, que reúne débitos da União, dos estados e dos municípios. A Dívida Pública Federal, por sua vez, somava R$ 9,29 trilhões em agosto, conforme os dados citados pelo Estadão.

O jornal classificou a declaração como uma fala à qual falta contexto, já que os dois indicadores têm abrangências diferentes.

Ministérios e cargos comissionados

Ao dizer que o governo Lula tem 39 ministérios, Flávio apresentou um número superior ao registrado pelo Estadão Verifica, que aponta 38 ministros em exercício. A declaração foi classificada como imprecisa.

Também houve imprecisão no balanço dos cargos extintos por Jair Bolsonaro. O candidato falou em 22,5 mil, enquanto o decreto de 2019 citado pelo jornal alcançou 21 mil cargos comissionados e funções gratificadas do Executivo federal.

Penduricalhos sem contexto

Flávio atribuiu aos penduricalhos dos Três Poderes uma despesa de R$ 24 bilhões. O Estadão observou que o estudo usado como referência estimou R$ 24,3 bilhões acima do teto constitucional em 2025 especificamente nas carreiras jurídicas, incluindo magistratura, Ministério Público, Advocacia Pública e Defensoria Pública.

A checagem também cita uma comissão técnica com representantes dos Três Poderes que apresentou ao Supremo Tribunal Federal uma estimativa de R$ 9,8 bilhões em verbas acima do teto. O jornal classificou a fala como carente de contexto.

As razões da saída de Moro

A afirmação de que Sergio Moro pediu demissão do governo Bolsonaro também foi classificada como uma declaração à qual falta contexto. O Estadão lembrou que o então ministro da Justiça deixou o cargo após a decisão de trocar o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo.

Ao anunciar sua saída, Moro denunciou pressões sobre o comando da instituição e afirmou que Bolsonaro pretendia ter uma pessoa de seu contato pessoal na direção da PF para obter informações. A demissão ocorreu, portanto, em meio a um rompimento que envolveu acusações públicas contra o então presidente.

O caso do vendedor de algodão-doce

O Estadão classificou como enganosa a declaração sobre um vendedor de algodão-doce condenado pelos atos golpistas. Segundo a checagem, não foram encontrados registros de um caso com essa descrição. Os episódios identificados envolvem um sorveteiro e um pipoqueiro presos em um acampamento bolsonarista em 9 de janeiro, sem estarem trabalhando naquele momento.

Ambos foram condenados por associação criminosa, com substituição da prisão por penas alternativas. Conforme o levantamento, a versão apresentada por Flávio altera elementos relevantes desses casos.

Créditos da União subestimados

Ao afirmar que a União tem R$ 3 trilhões a receber, Flávio usou uma cifra próxima do estoque da Dívida Ativa registrado no fim de 2024, quando o valor era de R$ 2,99 trilhões.

Segundo o Estadão Verifica, o dado de setembro de 2026 já alcançava R$ 3,55 trilhões. A diferença de aproximadamente R$ 550 bilhões em relação ao número mencionado levou o jornal a classificar a declaração como subestimada.

Onde Flávio acertou

A checagem reconheceu como verdadeira a afirmação sobre o recorde de feminicídios. O Estadão citou o registro de 1.571 casos em 2025, maior número desde a tipificação do crime, em 2015. Ressaltou, porém, que a tendência de alta atravessa diferentes governos.

Também foi considerada verdadeira a declaração sobre o recorde de endividamento. Segundo a pesquisa da Confederação Nacional do Comércio citada pelo jornal, 82% das famílias brasileiras relataram dívidas a vencer em julho, maior percentual da série iniciada em 2010. O indicador mede endividamento, o que não significa necessariamente atraso no pagamento.

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