terça-feira, 31 de março de 2026
Cenário político vira um labirinto de versões, mas aposta final ainda é em Cícero candidato
31/03/2026 05:49
Redação ON Reprodução

A política paraibana atravessou, nesta segunda-feira (30), um daqueles dias raros em que a lógica dá lugar à especulação e o ambiente se transforma num verdadeiro labirinto de versões. Em poucas horas, uma hipótese improvável ganhou corpo, contaminou bastidores, mobilizou grupos políticos e abriu espaço para teorias que vão do cálculo estratégico ao mais puro exercício de conspiração.

O ponto de partida foi a circulação da possibilidade de o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, não disputar o Governo do Estado. A hipótese, por si só, contraria tudo o que vinha sendo construído nos últimos meses. Cícero não apenas se colocou como pré-candidato, como lidera pesquisas, articula alianças e tomou uma decisão considerada de alto risco político: rompeu com o grupo do governador João Azevêdo para seguir em projeto próprio.

O rompimento, à época, foi interpretado como um movimento calculado. Preterido na formação da chapa majoritária governista, Cícero decidiu deixar a base e buscar viabilidade fora dela. Filiou-se ao MDB em um evento de grande porte e passou a operar uma pré-campanha independente, ancorada principalmente na força política da capital.

Foi justamente esse histórico recente que tornou o rumor ainda mais explosivo. Se a decisão de sair do grupo foi tomada com base em um projeto claro de poder, a hipótese de desistência, agora, soa contraditória – e difícil de sustentar sem uma mudança brusca de cenário.

Dúvidas & dúvidas

Mas o que era apenas ruído ganhou dimensão com os desdobramentos do dia. O vice-prefeito Léo Bezerra, que assumirá a Prefeitura de João Pessoa em caso de desincompatibilização de Cícero, foi direto ao ser questionado sobre o assunto: afirmou que a decisão é pessoal do prefeito e que acompanhará qualquer caminho escolhido por ele. A declaração, longe de pacificar o ambiente, ampliou a incerteza e reforçou a sensação de que não há uma definição sólida.

Pouco depois, veio a manifestação do governador João Azevêdo. Sem tratar o tema como improvável, ele afirmou que não se surpreenderia com uma eventual desistência, apontando como justificativa a falta de harmonia e de unidade no grupo ao qual Cícero se aliou após o rompimento com o governo. A fala teve forte repercussão por vir justamente de quem, até pouco tempo, dividia o mesmo campo político.

A partir daí, o ambiente político entrou em ebulição. Teorias começaram a surgir em velocidade impressionante. Algumas mais plausíveis, outras francamente improváveis. Entre elas, ganhou destaque a versão de que o movimento de Cícero teria sido, desde o início, parte de uma engenharia política mais ampla, envolvendo a família Cunha Lima. Nessa leitura, o rompimento com o governo teria servido para retirar da base governista um ativo estratégico – a Prefeitura de João Pessoa – enfraquecendo o grupo de João Azevêdo e reorganizando o tabuleiro para uma nova disputa.

Dentro dessa mesma linha, especula-se que a indefinição sobre o nome do vice na chapa de Cícero não seria um acaso, mas parte de um processo de esvaziamento gradual. O nome de Pedro Cunha Lima, que chegou ao segundo turno na última eleição estadual e mantém capital eleitoral relevante, passou a ser novamente citado como possível protagonista de uma reconfiguração de última hora. Por esse raciocínio, tudo isso teria sido minuciosamente orquestrado pelos CunhaLima, num monumental (e inacreditável) plano de marketing .

Grupo de WhatsApp

Outro elemento que alimentou o clima de desconfiança foi a informação de bastidores sobre um suposto vazamento de mensagens em grupo de WhatsApp, no qual teria sido discutida a recusa de Pedro em compor como vice e a apresentação de outros nomes que não empolgaram. Relatos dão conta de que Cícero não teria se convencido com nenhuma das alternativas e, diante do suposto vazamento, teria deixado o grupo. Nada disso, no entanto, foi confirmado oficialmente.

No meio desse turbilhão, também surgiram avaliações políticas mais diretas. O ex-prefeito Luciano Cartaxo, atual deputado estadual pelo PT, sustenta que Cícero acabou isolado no novo campo político, sem conseguir formar uma aliança robusta que desse sustentação clara à sua candidatura. A ausência de um vice competitivo em Campina Grande é apontada como um dos sinais mais visíveis dessa dificuldade.

Alguns aliados do Governo fazem uma análise mais objetiva sobre esse pouco interesse dos Cunha Lima em compor a chapa liderada pelo MDB: eles simplesmente não acreditam na vitória de Cícero. Acrescente-se a isso a desilusão de não poder contar com o apoio do presidente Lula. Sem Lula, Cícero iria pra onde? Pra Bolsonaro? Lá também não cabe. Em Patos, o pré-candidato ao Senado, Nabor Wanderley, acenou com a possibilidade de abrir as portas para uma reconciliação de Cícero com o grupo de JoãoAzevedo. Ninguém levou a sério, claro.

Mesmo assim, no fim do dia, entre versões conflitantes, leituras interessadas e conjecturas de todos os tipos, uma avaliação mais fria começou a prevalecer nos bastidores. Lideranças políticas influentes, ouvidas reservadamente pelo portal O Norte Online – tanto em João Pessoa quanto em Campina Grande – convergem para uma mesma conclusão: apesar do ambiente contaminado por especulações, a tendência é de que Cícero Lucena permaneça na disputa pelo Governo do Estado.

Sem exposição pública e longe do ruído, o veredito dos caciques é de pragmatismo – e não de ruptura.

canal whatsapp banner

Compartilhe: