O enredo da Acadêmicos de Niterói na Sapucaí transpôs as barreiras do samba e se tornou o novo campo de batalha jurídico entre o clã Bolsonaro, o partido Novo e o governo Lula. Entre acusações de “propaganda antecipada” e representações satíricas, o caso agora segue para o TSE.
O Carnaval do Rio de Janeiro de 2026 não ficou restrito ao brilho das lantejoulas. O desfile da Acadêmicos de Niterói, que trouxe uma homenagem direta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e uma representação satírica do ex-presidente Jair Bolsonaro como um “palhaço preso”, desencadeou uma onda de reações imediatas que prometem judicializar a maior festa popular do mundo.
TSE no Centro do Palco
A oposição não demorou a reagir. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou que acionará o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o que chamou de “crimes do PT” e uso político de um espaço público e cultural. Na mesma linha, o partido Novo formalizou uma representação alegando propaganda eleitoral extemporânea (fora de época) em favor de Lula na Sapucaí.
O argumento central das ações é que o desfile teria ultrapassado os limites da liberdade de expressão artística para se tornar uma peça de marketing político financiada, direta ou indiretamente, com recursos que podem ser questionados.
Satirização e Resposta
Um dos pontos de maior tensão foi a alegoria que retratou Jair Bolsonaro de forma caricata. Michelle Bolsonaro reagiu com indignação às imagens, classificando a representação como um desrespeito não apenas ao seu marido, mas a milhões de eleitores. Para aliados do ex-presidente, a escola de samba promoveu um “discurso de ódio fantasiado de arte”, o que pode acirrar ainda mais a polarização no país.
Emoção e Recuo Estratégico
Enquanto a oposição atacava, o presidente Lula utilizou suas redes sociais para manifestar “muita emoção” com a homenagem recebida na avenida. No entanto, o evento também teve seus momentos de cautela política. A primeira-dama Janja da Silva, embora convidada e entusiasta da homenagem, desistiu de desfilar de última hora. Interlocutores sugerem que a decisão foi um movimento estratégico para evitar personalizar ainda mais a polêmica e poupar o governo de críticas sobre “exposição excessiva” em um momento de sensibilidade institucional.
Problemas à Vista
A consolidação dessas informações aponta para três problemas principais decorrentes do desfile:
1. Judicialização do Carnaval: O precedente de levar enredos ao TSE pode criar um ambiente de censura prévia ou medo de retaliação em futuros carnavais, alterando a natureza crítica e satírica das escolas de samba.
2. Aprofundamento da Polarização: A exploração política do desfile serve como combustível para as bases de ambos os lados, transformando um momento de união nacional em mais um motivo de divisão.
3. Questionamento de Verbas Públicas: A fiscalização sobre como as escolas de samba utilizam verbas estaduais e federais deve se intensificar, com a oposição prometendo “pente fino” nas subvenções recebidas pelas agremiações que apresentarem conteúdos de teor político partidário.
O desfile da Acadêmicos de Niterói prova que, no Brasil contemporâneo, até o samba é capaz de fazer o relógio de Brasília girar mais rápido, deixando claro que a disputa de narrativas entre Lula e Bolsonaro está longe de ter um fim, seja nas urnas, nos tribunais ou na Sapucaí.