A Quarta-feira de Fogo em João Pessoa mostrou que o carnaval das Muriçocas do Miramar é mais do que um bloco de rua. Aos 40 anos, o desfile voltou a tomar conta da Avenida Epitácio Pessoa, reunindo uma multidão que não se deixou intimidar pela ameaça de chuva. A festa, porém, teve também um outro palco: os camarotes, onde a política pareceu, ao menos por algumas horas, reduzir o tom do confronto.
Na avenida, o roteiro foi o esperado: carros de som, trios elétricos e uma massa compacta de foliões acompanhando o percurso. A presença de Alceu Valença como principal atração em alguns momentos transformou o desfile em um grande coro coletivo, reforçando o papel das Muriçocas como um dos marcos simbólicos do carnaval da capital.
Nos bastidores, o clima foi de convivência cautelosa. Fotos e registros mostraram o governador João Azevêdo ao lado do vice-prefeito Léo Bezerra, que nos últimos meses tem mantido uma posição política mais alinhada ao prefeito Cícero Lucena. Não se trata de reaproximação formal nem de sinalização de alianças, mas de um convívio circunstancial, típico de ambientes em que a festa impõe uma suspensão temporária das rusgas.

Outros nomes de diferentes partidos também circularam pelos camarotes, trocando cumprimentos e conversas rápidas. A impressão geral foi a de uma trégua momentânea, dessas que o carnaval permite: não apaga divergências, não resolve disputas, mas cria um cenário em que adversários convivem sem o tom beligerante do dia a dia político.
Pouco depois do desfile, o governador publicou um vídeo nas redes sociais exaltando o carnaval das Muriçocas, destacando a importância da festa popular, da segurança e do respeito às mulheres durante a folia. A mensagem institucional dialogou com o clima da noite, em que a cidade parecia mais preocupada em festejar do que em disputar espaços de poder.
O evento este ano teve um público um pouco abaixo da expectativa dos organizadores, mas foi, como sempre, empolgante, principalmente quando Alceu Valença passou na avenida. E houve ainda um momento de tensão (sem trocadilho), quando o trio comandado pelo Mestre Fuba bateu em fios de alta tensão, causando um pequeno susto na plateia.
Quarenta anos depois de surgir como uma brincadeira entre amigos no Miramar, o bloco segue mostrando que o carnaval também é um espaço de bastidores. Entre confete, trio elétrico e camarote, a política não desaparece, mas aprende, por algumas horas, a baixar o tom e desfilar no ritmo da festa.