João Pessoa, quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Caminhada de Nikolas mostra que Bolsonaro virou âncora e afunda a agenda da direita
22/01/2026 04:54
Redação ON Reprodução

A caminhada liderada por Nikolas Ferreira, de Minas Gerais até Brasília, serve apenas para mostrar um problema estratégico que a direita brasileira parece insistir em ignorar: a perda de conexão com a realidade. É um equívoco concentrar praticamente toda a sua agenda política na defesa de Jair Bolsonaro, um caso que, do ponto de vista jurídico, está encerrado. Nada indica que o Supremo Tribunal Federal vá rever decisões, conceder anistias informais ou mudar o rumo dos processos em curso.

Essa avaliação ganhou força nesta quarta-feira (21) em programas e canais políticos do Sudeste, que apontam um efeito paradoxal do movimento. Em vez de fortalecer a oposição, a caminhada tende a facilitar o discurso do presidente Lula, que aparece ocupado com entregas, anúncios e programas sociais, enquanto a direita se mantém presa a uma pauta simbólica, emocional e pouco conectada com as urgências do eleitor comum.

O gesto de caminhar por rodovias, pressionando o Supremo e pedindo benefícios jurídicos para Bolsonaro e condenados do 8 de janeiro, pode até mobilizar militância e gerar imagens fortes nas redes sociais, mas não dialoga com temas como custo de vida, saúde pública, segurança, desemprego ou problemas ambientais. É justamente essa lacuna que, segundo especialistas, acaba beneficiando o Planalto: a oposição protesta, mas não oferece horizonte.

No caso da Paraiba…

Essa crítica nacional encontrou um espelho quase perfeito na Paraíba. O vereador Marcos Henriques, do PT de João Pessoa, reagiu à adesão do deputado estadual Sargento Neto, do PL, à caminhada bolsonarista com uma cobrança que sintetiza o debate. Em vez de caminhar até Brasília, por que não caminhar até Campina Grande para encarar problemas concretos da população?

A provocação não foi retórica. Marcos Henriques citou a crise na saúde, o atraso de salários na prefeitura aliada do deputado e a situação ambiental do Açude Velho. O questionamento expõe exatamente o ponto levantado pela chamada Grande Imprensa: quando a política se afasta da vida real, ela perde força fora da bolha ideológica.

A coincidência entre a crítica de alcance nacional e o episódio local na Paraíba não é casual. Ambos revelam o mesmo diagnóstico. A direita parece cada vez mais confortável em falar de Bolsonaro, do Supremo e de disputas institucionais abstratas, enquanto deixa de lado os problemas que batem à porta do eleitor todos os dias.

Ao transformar Bolsonaro no eixo absoluto da estratégia política, a oposição corre o risco de disputar uma eleição olhando para trás, em torno de um personagem que já não tem margem jurídica nem capacidade real de alterar o cenário institucional. Nesse vácuo, Lula ocupa o centro do debate com ações concretas, mesmo enfrentando críticas e desgaste.

A caminhada, nesse sentido, acaba funcionando menos como ato político e mais como símbolo de uma desconexão. Ela revela uma direita mobilizada, barulhenta, mas cada vez mais distante da realidade imediata da população — exatamente o tipo de cenário que favorece quem está no poder.

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