Câmara acelera debate sobre a escala 6×1; bancada da Paraíba se divide entre apoio e silêncio
25/02/2026 05:35
Redação ON Reprodução

O debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1 – modelo em que o trabalhador atua seis dias seguidos para folgar apenas um – entrou de vez na agenda prioritária da Câmara dos Deputados e deve ganhar ritmo nas próximas semanas. A proposta, defendida pelo governo Lula e por parlamentares da esquerda, pretende abrir caminho para a adoção do modelo 5×2, com dois dias de descanso semanal, além de reduzir a jornada para 40 horas, sem corte de salários.

A matéria já começou a ser organizada no cenário político do Congresso. O presidente da Câmara, Hugo Motta, confirmou que a proposta começará a tramitar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), etapa em que se analisa a constitucionalidade do texto. A expectativa da cúpula da Casa é que o debate avance ainda neste primeiro semestre, com a instalação de uma comissão especial para aprofundar a discussão sobre a mudança na jornada de trabalho.

Relator escolhido

O relator da proposta na CCJ será o deputado federal Paulo Azi (União Brasil-BA). Engenheiro civil e administrador de empresas, com longa trajetória na política baiana, Azi é um quadro experiente do Centrão e já ocupou cargos estratégicos na Câmara, incluindo a presidência do Conselho de Ética. Caberá a ele o primeiro parecer sobre a admissibilidade da PEC que trata do fim da escala 6×1, um passo decisivo para que o texto possa avançar no Congresso.

Enquanto o Palácio do Planalto trabalha para acelerar a tramitação, a resistência política já se organiza. Presidentes de dois dos maiores partidos da Câmara, Valdemar Costa Neto (PL) e Antônio Rueda (União Brasil), declararam publicamente que a estratégia da oposição e de setores do centro é “segurar” a proposta nas comissões, especialmente na CCJ, evitando que o tema chegue ao plenário. O argumento central é de que a mudança teria impacto negativo sobre a economia e os custos das empresas. Nos bastidores, a movimentação é tratada como uma tentativa clara de travar o avanço da proposta antes que ela ganhe apoio popular mais amplo.

E a bancada paraibana?

Na Paraíba, o tema também expôs posições e silêncios. A redação de O Norte Online tentou ouvir os deputados federais da bancada paraibana. Apenas Luiz Couto (PT) respondeu formalmente, com uma defesa enfática do fim da escala 6×1 e da redução da jornada de trabalho.

“O Brasil precisa avançar na valorização de quem trabalha. Defendo o fim da escala 6 por 1, que sacrifica a saúde, a convivência familiar e a qualidade de vida de milhões de trabalhadores e trabalhadoras. Trabalhar menos horas não é prejuízo. É mais saúde, mais emprego, mais produtividade e mais dignidade”, afirmou o parlamentar.

Os demais deputados federais da Paraíba procurados pela reportagem não responderam ou evitaram se posicionar até o fechamento desta matéria. O silêncio é interpretado como cautela diante de um tema que mobiliza fortemente tanto o eleitorado quanto o setor empresarial, sobretudo em estados com forte presença do comércio e de serviços, onde a escala 6×1 é amplamente utilizada.

O presidente da Câmara, Hugo Motta, tratou do tema publicamente durante evento esta semana na Paraíba, na sede da Codevasf. Ele demonstrou otimismo quanto à tramitação da proposta e defendeu que o debate seja conduzido com responsabilidade, ouvindo trabalhadores e empregadores.

Hugo afirmou que a indicação do relator e a organização da comissão especial fazem parte de um esforço para amadurecer a discussão e levar a matéria à votação ainda no primeiro semestre. Para o presidente da Câmara, o avanço tecnológico e os ganhos de produtividade justificam a revisão do modelo atual de jornada, desde que o setor produtivo também seja ouvido no processo.

O que se desenha, portanto, é um embate político de grandes proporções. De um lado, governo e parlamentares da base defendem a mudança como um avanço civilizatório, com impacto positivo na saúde, na qualidade de vida e até na geração de empregos. Do outro, lideranças partidárias e setores empresariais articulam uma estratégia para frear ou retardar a tramitação, temendo efeitos econômicos e aumento de custos.

Com relator definido, pressão dos dois lados e promessa de avanço ainda neste semestre, a proposta do fim da escala 6×1 tende a se transformar em um dos temas mais sensíveis e politicamente ruidosos do Congresso em 2026 – e a posição final dos deputados da Paraíba, até agora majoritariamente silenciosos, deverá entrar no radar do eleitorado.

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