Dos 81 senadores que ocupam o Congresso Nacional hoje, 34 já deram espaço para que seus suplentes assumissem o mandato. Isso significa que exatos 42% dos parlamentares na ativa na Casa não receberam um único voto direto do eleitorado para exercer o cargo. Eles assumiram as cadeiras por causa de licenças, nomeações de titulares para ministeriados ou renúncias, passando a legislar, votar orçamentos e definir o rumo do país.
É por causa desse peso estratégico — a chance real de virar senador “sem voto” — que a suplência deixou de ser uma indicação meramente formal e se transformou em um valioso presente político. A tendência da vez é a blindagem doméstica: caciques partidários reservam a posição para parentes e herdeiros diretos, garantindo que a herança da cadeira permaneça dentro de casa.
Na Paraíba, as articulações para as eleições deste ano mostram como esse modelo de patrimônio familiar domina tanto a composição das vice-governadorias quanto a linha de sucessão direta ao Senado Federal.
O desenho das chapas majoritárias no estado evidencia laços de parentesco e alianças conjugais em posições de retaguarda:
Chapa de Efraim Filho (União Brasil): A candidata a vice-governadora é Naiana Pontes, esposa do deputado federal Cabo Gilberto Silva (PL). Já na disputa ao Senado, a primeira suplência de Dr. Marcelo Queiroga (PL) ficou com Carol Morais (PL), esposa do próprio senador e articulador político Efraim Filho.
Chapa de Lucas Ribeiro (PP): O governador e candidato à reeleição escolheu para a vice-governadoria a ex-vice-governadora Lígia Feliciano, esposa do deputado federal Damião Feliciano. Na disputa ao Senado alinhada, o candidato Nabor Wanderley (Republicanos) — pai do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta — traz como 1ª suplente a senadora Daniella Ribeiro (PP), que é mãe de Lucas Ribeiro.
Chapa de Cícero Lucena (MDB): O candidato ao Governo indicou para a vice o empresário Diogo Cunha Lima (PSD), filho do ex-governador Cássio Cunha Lima e neto do ex-governador Ronaldo Cunha Lima. Já na vaga ao Senado, a 1ª suplência de Veneziano Vital do Rêgo (MDB) ficou com Janine Lucena (PSD), médica e filha de Cícero Lucena.
Tendência nacional
O quadro paraibano é a reprodução de um vício que se espalhou por todo o país. Um levantamento recente feito pela revista Veja revelou que ao menos quinze chapas nas primeiras posições das pesquisas para o Senado contam com parentes diretos ocupando a vaga de reserva.
Pelo Brasil, os arranjos domésticos para garantir a vaga sem voto se multiplicam:
Distrito Federal: A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) indicou o irmão, Diego Torres Dourado (PL), para sua primeira suplência. No mesmo pleito, a deputada Bia Kicis (PL) escalou o próprio filho, Samuel Kicis.
Pará: O ex-governador Helder Barbalho (MDB) colocou seu pai, o senador Jader Barbalho (MDB), como o substituto imediato na chapa.
Piauí e Amazonas: O senador Ciro Nogueira (PP-PI) escalou o irmão Raimundo Nogueira para a suplência, enquanto Eduardo Braga (MDB-AM) repete a dobradinha com a esposa, Sandra Braga.
Como a legislação brasileira adota o sistema de “chapa fechada”, o nome dos suplentes e vices raramente é levado ao conhecimento do público na propaganda eleitoral. Sem perceber, ao escolher o titular, o cidadão acaba carimbando o passaporte de parentes e herdeiros diretos para um mandato de até oito anos no Congresso Nacional.

