sábado, 14 de março de 2026
Cabaceiras chega ao The New York Times, que transforma a Roliúde Nordestina em símbolo histórico do cinema brasileiro
10/12/2025 07:18
Redação ON Reprodução

Por décadas, Cabaceiras foi conhecida no mapa da Paraíba como uma pequena cidade incrustada no Cariri, marcada pela seca, pela resistência do povo sertanejo e pelas paisagens de pedra que desafiam o verde. Agora, essa mesma cidade acaba de romper definitivamente as fronteiras do Brasil e ganhar o mundo: Cabaceiras foi tema de uma grande reportagem do The New York Times, o maior jornal do planeta, feito histórico para o cinema brasileiro e, de forma ainda mais especial, para o cinema produzido na Paraíba.

A reportagem foi publicada no início de dezembro e assinada pelos jornalistas Ana Ionova e Dado Galdieri, que estiveram pessoalmente na cidade. O jornal norte-americano descreve Cabaceiras como uma espécie de “Hollywood do Nordeste”, um destino improvável onde a aridez do clima, em vez de impedir a vida artística, acabou se transformando em cenário perfeito para o audiovisual.

Logo na chegada à cidade, segundo o Times, o visitante é recebido por símbolos que não escondem a vocação cinematográfica: grandes estrelas pintadas nas calçadas, referências ao cinema espalhadas pelo comércio e, no alto das pedras, um letreiro que virou marca registrada: “Roliúde”, a versão nordestina da palavra Hollywood.

Cabaceiras, com pouco mais de cinco mil habitantes, já serviu de cenário para dezenas de filmes, séries e produções para a televisão desde 1929, quando foi rodado ali um dos primeiros documentários sobre a vida no Nordeste. Mas o grande divisor de águas foi no ano 2000, com a gravação do filme “O Auto da Compadecida”, que projetou definitivamente a cidade no imaginário nacional.

Desde então, a Roliúde nordestina nunca mais saiu de cena. Nos últimos anos, produções voltadas ao universo do cangaço e dos bandoleiros do sertão, muitas delas feitas para plataformas como Disney+ e Amazon Prime, escolheram Cabaceiras por sua estética única, pela luz natural intensa e pelas paisagens quase intocadas.

O The New York Times destaca que parte do que parecia uma maldição — a falta quase permanente de chuvas — acabou se transformando em um trunfo cinematográfico: céu azul durante quase todo o ano, poucas variações climáticas e uma paisagem que dispensa efeitos especiais.

Mas a reportagem vai além da paisagem. O jornal coloca no centro da história os próprios moradores, que se tornaram atores, figurantes, guias turísticos, donos de pousadas improvisadas e até comerciantes de souvenirs ligados ao cinema. Em Cabaceiras, segundo o Times, quase todo mundo já atuou ou sonha em atuar em algum filme.

Entre os personagens retratados está Maria Edite Santos França, de 71 anos, avó, moradora da cidade e atriz amadora veterana. Ela já participou de produções há mais de duas décadas e segue fazendo testes. Em depoimento ao jornal, resume com orgulho a naturalidade com que os moradores encaram as câmeras: “Se pedirem para rir, a gente ri. Se pedirem para chorar, a gente chora”.

Outro personagem é Amilton de Farias Cunha, vaqueiro que se transformou em ator e empresário do turismo local. Ele hoje recebe visitantes em sua fazenda, vende lembranças, conduz trilhas por cenários de gravações e ainda atua em produções quando surgem oportunidades. Para ele, o cinema virou uma nova forma de sustento: “Hoje, a gente ganha mais dinheiro com as pedras do que com as cabras”, relata.

O jornal mostra que as produções audiovisuais trouxeram renda para a cidade: aluguel de casas, contratação de figurantes, uso de animais em cena, pagamento de diárias e falas, tudo movimenta a economia local. Em alguns casos, uma única fala em cena pode render mais do que um salário mínimo mensal inteiro.

Mas a matéria também aponta os desafios desse crescimento. O maior deles continua sendo a água. O aumento de moradores, turistas e equipes de filmagem intensificou a competição por um recurso que sempre foi escasso. Além disso, as mudanças climáticas tornaram as chuvas ainda mais imprevisíveis, afetando inclusive o planejamento das gravações.

Outro obstáculo citado é a própria evolução da tecnologia. Com avanços na computação gráfica e na inteligência artificial, hoje é possível simular paisagens áridas em estúdios, sem que as equipes precisem viajar. O reflexo disso, segundo moradores ouvidos pelo jornal, é que o número de grandes produções diminuiu nos últimos anos.

Um episódio citado com frustração é o da continuação do filme que projetou Cabaceiras nacionalmente, cuja sequência foi gravada em estúdio no Rio de Janeiro, e não no sertão paraibano. Para muitos, aquilo soou como uma espécie de “traição” à Roliúde original.

Apesar disso, a identidade cinematográfica permanece viva. O jornal descreve o cotidiano da cidade como um grande set a céu aberto: moradores em figurino, turistas em busca dos cenários famosos, trilhas entre rochedos gigantescos, sessões de cinema improvisadas e testes de elenco acontecendo em prédios públicos.

O texto do The New York Times termina de forma simbólica. Após mais um dia de filmagem na praça atrás da igreja colonial da cidade, figurantes e atores se reúnem para uma foto. Sorridentes, suados, orgulhosos, posam como quem acredita que o próximo grande papel pode estar logo ali. Um deles resume o espírito local em uma frase que atravessa fronteiras: “Quem sabe a outra Hollywood não ouve falar da gente e resolve nos procurar”.

Para o cinema brasileiro, a reportagem no maior jornal do mundo é um reconhecimento raro. Para a Paraíba, é um marco histórico. Para Cabaceiras, é a confirmação de algo que o povo do Cariri sempre soube: no meio da seca, também nascem sonhos — e alguns deles viram cinema.

Fonte: The New York Times

Reportagem de Ana Ionova e Dado Galdieri

Publicada na edição internacional de 7 de dezembro de 2025

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