Confesso: em determinado momento do jogo, eu me peguei torcendo. Não analisando, não comentando, não exercendo o distanciamento que a profissão exige. Torcendo. Como torci na juventude, quando o Botafogo da Paraíba ainda frequentava cenários maiores, quando sonhar não parecia um exagero.
E essa lembrança veio inteira. Veio com som, com imagem, com cheiro de rádio antigo. Veio com a memória daquele dia em que comentei, pela Rádio Tabajara, em 1980, a vitória histórica sobre o Flamengo de Zico, Júnior e Raul – campeão do mundo, cheio de craques no Maracanã – derrotado por um Botafogo valente, que não pedia licença pra ninguém.
Talvez tenha sido por isso que a emoção me venceu.
E talvez tenha sido também por isso que essa conquista tenha um sabor diferente.
Porque não foi só um título.
Foi um reencontro.
Reencontro com um Botafogo campeão, coisa que não acontecia desde 2019. Reencontro com um estádio cheio, mais de 20 mil pessoas no Almeidão, empurrando, pressionando, acreditando. Reencontro também com a própria Rádio Tabajara, que mais uma vez mostrou por que é a grande força do rádio esportivo da Paraíba – e, desta vez, em parceria com o Norte Online. Coincidência ou não, parece que essa união deu sorte. Ou melhor: deu título.
Mas, passada a emoção, é preciso dizer o que o campo mostrou.
E o campo mostrou um Souza respeitável.
Um time que não se intimida, que joga bola com personalidade. Não é por acaso que eliminou o Santa Cruz no Recife. Não é por acaso que despachou o Campinense dentro do Amigão. E não foi por acaso que, neste sábado, jogou mais que o Botafogo.
Sim, jogou mais.
Se no primeiro jogo, lá em Sousa, o Botafogo foi superior — e Lisca estava certo ao dizer que seu time “jogou muita bola” —, desta vez o roteiro foi outro. No Almeidão, diante da sua torcida, o Botafogo foi um time travado. Sentiu o peso da decisão. Sentiu a responsabilidade. Jogou com o regulamento debaixo do braço.
Foi um time acuado. Criou pouco. Arriscou menos ainda.
Ganhou o título, é verdade. E isso ninguém tira. Mas não jogou bem. E não dá pra dourar a pílula: hoje, Lisca não pode repetir aquela frase. O time não jogou muita bola.
Ganhou porque tinha vantagem. Ganhou porque soube sofrer. Ganhou porque, às vezes, título também se conquista assim.
E há um ponto que precisa ser dito, ainda que doa em quem gosta – e eu gosto – de ver história em campo.
Nenê, aos 44 anos, é um símbolo. Um nome respeitado. Uma referência técnica e até emocional dentro do elenco. Mas hoje, em campo, ele não consegue mais acompanhar o ritmo que uma decisão exige. Está se arrastando em alguns momentos. Foi substituído pelo desgaste. E isso não é opinião, é constatação.
No jogo passado, saiu machucado. Neste, saiu cansado. Nada disso, porém, apaga o essencial.
O Botafogo é campeão.
E, para quem já viveu esse clube em outros tempos, para quem já narrou, comentou, vibrou e agora, de novo, se pegou torcendo… esse título tem um peso que vai além da taça.
Ele devolve algo que estava guardado.
Talvez a esperança.
Talvez a memória.
Talvez, simplesmente, o prazer de voltar a sentir.