O presidente da Associação Via Folia, Francinaldo Bandeira, tentou delimitar o alcance de sua declaração de que não voltará a contratar artistas contrários ao bolsonarismo. Na explicação apresentada após a repercussão, afirmou que falava de seus negócios particulares, e não das atrações dos blocos do pré-carnaval de João Pessoa. A distinção esclarece a quem ele atribui a responsabilidade pelas contratações, mas mantém o motivo da controvérsia: transformar divergência política em critério de exclusão profissional.
A manifestação inicial ocorreu nesta segunda-feira (26), um dia após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro. Bandeira declarou que não tinha interesse em trabalhar com petistas e estendeu a restrição a artistas, empresários e outras pessoas contrárias ao bolsonarismo. A fala foi reproduzida pela imprensa paraibana.
“Esses artistas que são anti-Bolsonaro não se preocupem, eu nunca mais contrato vocês. Eu nunca mais quero fazer nenhum trabalho com vocês”, afirmou.
Hoje, no programa Õ Paraiba Boa, o dirigente sustentou que sua manifestação foi retirada de contexto e destacou que não escolhe as atrações das agremiações.
“Eu sou presidente da Via Folia. Eu não sou presidente dos blocos”, disse, citando a autonomia das organizações das Virgens de Tambaú e das Muriçocas do Miramar. Segundo ele, sua atuação envolve melhorias nos acessos, na estrutura e na cenografia do corredor dos desfiles.
Ao tratar de sua atividade como produtor, entretanto, reafirmou o posicionamento: “Eu faço show todo dia, eu faço outros projetos onde envolve artistas”. Também voltou a associar artistas que se declaram antibolsonaristas à imagem de alguém com “espuma na boca de raiva”.
A explicação não desfaz o veto
Há uma diferença entre esclarecer que a declaração não representa uma decisão dos blocos e recuar da disposição de excluir profissionais por suas convicções. Na gravação, Bandeira faz a primeira coisa, mas não a segunda.
Seu direito de apoiar Bolsonaro e manifestar essa preferência não está em discussão. A crítica recai sobre o anúncio de que a posição política de outra pessoa será usada para fechar portas de trabalho. Trata-se de uma postura de intolerância que merece ser questionada em qualquer segmento, independentemente de quem a pratique ou de qual corrente política seja o alvo.
Ao dizer que sempre respeitou o pensamento alheio, o dirigente apresenta uma justificativa que entra em conflito com o veto anunciado. Respeitar a divergência exige aceitar que um artista possa pensar de maneira diferente sem que isso, por si só, o desqualifique profissionalmente.
Uma entidade com apoio público
A posição institucional de Bandeira acrescenta relevância ao episódio. A Via Folia integra a organização de uma festa realizada em espaço público e apoiada pelo poder público. A própria Prefeitura de João Pessoa registra a parceria com a associação na estruturação do circuito da Avenida Epitácio Pessoa.
Em janeiro, o Governo da Paraíba anunciou R$ 1 milhão para a Via Folia no Carnaval de 2026. O Diário Oficial também publicou a habilitação de um projeto nesse valor, tendo como proponente a Associação Pré-Carnavalesca Via Folia e Francinaldo da Costa Bandeira como responsável legal.
Esses registros não demonstram que tenha ocorrido contratação discriminatória com dinheiro público. Tornam, porém, necessário esclarecer como o dirigente separa suas preferências pessoais das responsabilidades assumidas à frente de uma entidade apoiada pelo Estado.
A explicação de Bandeira procura afastar os blocos da controvérsia. Falta rever o princípio que a provocou: no Carnaval, na produção de shows ou em qualquer outra atividade, divergência política não deveria servir de instrumento de retaliação profissional.

