O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) virou um autêntico campo de batalha político e regimental nesta terça-feira. Marcada para começar impreterivelmente às 10 horas da manhã, a sessão extraordinária já deu seus primeiros sinais de crise antes mesmo do primeiro voto: com meia hora de atraso, os ministros ocuparam suas cadeiras sob um clima de pesada tensão nos bastidores, com trocas de olhares gélidos e cara fechada. O que se seguiu na primeira metade do dia foi um dos episódios mais ríspidos da história recente da Corte, com acusações abertas, dedos em riste e xingamentos que cruzaram o plenário de ponta a ponta.
A faísca inicial acendeu quando o ministro Alexandre de Moraes provocou o plenário com uma pergunta direta: “Quem tem medo da Polícia Federal?”. Atropelando o andamento dos trabalhos, o ministro André Mendonça rebateu imediatamente: “Não é questão de medo, não!”. Moraes cortou o colega, subindo a temperatura do plenário: “Eu não perguntei a você!”, emendando a provocação ao citar delações e testemunhas: “Vamos chamar as pessoas então!”. Mendonça, visivelmente exaltado, cortou a fala do colega aos gritos: “Isso é mentira! É mentira!”. Foi nesse instante que o confronto ganhou contornos de barraco generalizado com a intervenção do decano Gilmar Mendes, que partiu para cima de Mendonça acusando-o de atuar de forma “político-eleitoral”, de agir com “desfaçatez” e contra o próprio tribunal.
A resposta de Mendonça veio em tom ríspido, com o corpo projetado para a frente: “Vossa Excelência está sendo leviano! Leviano, ministro! Me respeite!”. Gilmar não recuou e devolveu na mesma moeda: “Pessoas decentes não fazem isso!”. A frase foi o estopim. Mendonça levantou-se, estendeu a mão e apontou o dedo ostensivamente para o rosto de Gilmar Mendes no meio da bancada. O decano, sem sair da posição, rebateu aos gritos: “Não aponte o dedo para mim! Não aponte o dedo para mim! Você não está falando com qualquer um!”. Encarando Gilmar a poucos metros de distância, Mendonça retrucou: “Respeite esse Tribunal! Quem não se dá ao respeito não merece respeito!”. A essa altura, com os microfones transmitindo apenas uma gritaria cruzada e os seguranças do STF em prontidão, a sessão precisou ser suspensa para conter a escalada de tensão.
Pedido de vista de Flávio Dino e críticas à condução dos trabalhos
Na retomada e no desdobramento dos debates em torno da unificação das análises dos casos envolvendo os ministros e o banco Master/ex-banqueiro Daniel Vorcaro, a crise institucional ganhou novos contornos regimentais. O ministro Flávio Dino, ao interromper o bate-boca entre Gilmar Mendes e André Mendonça, fez duras críticas ao presidente do STF, Edson Fachin, classificando a condução da sessão como “desastrada”. Em fala contundente direcionada à presidência, Dino disparou: “Se Vossa Excelência vai assistir a isto, eu não vou, porque sou funcionário público deste país e tenho respeito a ele”.
Na sequência, o ministro Flávio Dino formalizou um pedido de vista, paralisando a conclusão do julgamento e abrindo um prazo de até 90 dias para a devolução do processo — o que, na prática, pode empurrar a palavra final ou a consolidação da tese para o encerramento do ano judiciário, em dezembro.
Indefinição total e divergência dos placares na mídia
A confusão e o tumulto no plenário foram tão intensos que se refletiram de forma imediata e contraditória na cobertura dos grandes veículos de imprensa. A indefinição regimental sobre a contagem dos votos gerou bate-cabeça e divergências abertas entre as principais redações do país, demonstrando que nem mesmo os jornalistas conseguiram cravar com certeza qual era o placar real no momento da suspensão.
Enquanto portais de notícias como o Metrópoles e o Estadão chegaram a projetar cenários oscilando entre o 4 a 4 e o 4 a 3, a própria reportagem do UOL explicitou a confusão ao registrar que o STF contabilizava 4 votos a 3 para manter separada a análise dos processos — com os votos de Edson Fachin, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia —, ao mesmo tempo em que explicava que o voto do ministro Flávio Dino (que daria o empate em 4 a 4 ao lado de Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin) acabou sendo desconsiderado antes do término da sessão devido ao seu pedido de vista. Essa disparidade nas manchetes e nos mapas de votação da mídia deixa evidente que nada está definido e que a disputa política e jurídica dentro do Supremo continuará fervendo nos bastidores.

