A chamada “caminhada pela liberdade”, liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira, independentemente dos efeitos políticos/jurídicos, passa a preocupar por causa de riscos reais à saúde de quem está sendo exposto a um desgaste físico extremo. Um esforço prolongado e, em muitos casos, sem qualquer preparo ou condicionamento adequado. O grupo de Nikolas Ferreira saiu de Paracatu, em Minas Gerais, na segunda-feira, 19, e deve chegar a Brasília no domingo, 25, percorrendo um total de 240 km.
O alerta ganha ainda mais relevância com a adesão de políticos paraibanos ao movimento e com o anúncio de novas caminhadas no Nordeste, incluindo a promessa feita pelo ex-ministro Marcelo Queiroga, de um percurso superior a 120 quilômetros entre Cajazeiras e Juazeiro do Norte. A repetição desse tipo de iniciativa amplia o risco de que mais pessoas, despreparadas, se lancem a desafios físicos para os quais o corpo simplesmente não está pronto.
Risco médico
Além dos perigos no trânsito já apontados pela Polícia Rodoviária Federal, há um fator ainda mais grave: o risco médico. Vídeos e imagens mostram participantes usando calçados inadequados, caminhando sob sol intenso, e apresentando sinais claros de esgotamento físico. O próprio Nikolas Ferreira já aparece mancando, apoiado por aliados e com dificuldades evidentes para seguir o percurso.
O Norte Online ouviu o ortopedista Roger Diniz, especialista em Ortopedia e Traumatologia, professor da Faculdade de Medicina UNIMES-SP. Ele explica que submeter pessoas não treinadas a caminhadas longas e sucessivas pode provocar uma série de problemas, como bolhas, dores musculares intensas, inflamações, sobrecarga na coluna, lesões articulares e até alterações cardíacas. Segundo ele, o risco aumenta quando o indivíduo ultrapassa seus limites naturais, algo comum em situações de pressão coletiva ou exposição pública.
O professor de educação física Alysson Lima, da Academia Prodígio, de João Pessoa, especialista em obesidade e emagrecimento, reforça que caminhadas prolongadas são frequentemente subestimadas. Mesmo sendo uma atividade considerada leve, o esforço contínuo por horas impõe um estresse severo ao organismo.
Em pessoas destreinadas, o coração precisa trabalhar mais, aumentando a frequência cardíaca e o risco de arritmias, além da possibilidade de desidratação e queda no volume sanguíneo.
Para o professor Alysson, do ponto de vista ortopédico, “o impacto repetitivo sobre joelhos, quadris e tornozelos pode levar a inflamações como canelite, fascite plantar e até microfraturas por estresse. Quando a musculatura fadiga, ela deixa de absorver o impacto, transferindo a carga diretamente para ossos e cartilagens”, ressalta.
A advertência é simples e necessária: caminhar faz bem à saúde quando há preparo, adaptação progressiva e respeito aos limites do corpo. Transformar caminhadas longas em atos improvisados, sem planejamento físico e médico, não é símbolo de resistência – é um risco concreto, com potencial de terminar em lesões graves ou emergências médicas evitáveis.

