terça-feira, 4 de agosto de 2026
Aderbal Nogueira defende o valor histórico dos depoimentos dos remanescentes do cangaço
08/11/2025 08:12
Redação ON Reprodução

Numa palestra em forma de entrevista, no V Encontro do Borborema Cangaço, em Monteiro, o pesquisador cearense Aderbal Nogueira — referência nacional no estudo do cangaço — fez um desabafo dirigido à comunidade que discute o tema. Segundo ele, persiste um preconceito injusto contra os depoimentos deixados pelos próprios remanescentes do fenômeno histórico, muitos deles tratados como “mentirosos” por pesquisadores e leitores que vieram depois.

Aderbal lembrou que gravou depoimentos ao longo de décadas, tanto de ex-cangaceiros quanto de volantes, e que sua formação nesse campo se fez pela escuta — não pela reprodução de juízos pré-construídos. Ele cita as depoentes Dadá e Sila como exemplos centrais: mulheres que deixaram relatos sem os quais boa parte do que se sabe hoje simplesmente não existiria.

Segundo ele, há um erro estrutural de interpretação quando se julga o testemunho oral como se aquelas pessoas fossem escritoras que tivessem supervisionado textos publicados em seu nome. “Nenhum daquele pessoal tinha condição de escrever um artigo, quanto mais um livro”, diz. “Eles eram semi-analfabetos. Falavam, respondiam, davam o que sabiam. Quem depois botou no papel foram outras pessoas.”

Aderbal pede menos reprodução de chavões e mais pesquisa. E encerra o raciocínio com uma crítica à ideia de que basta repetir o que outro historiador afirmou. “Não seja papagaio de pirata”, afirmou. Para ele, o papel do pesquisador é ir às fontes — incluindo o povo, o depoente, quem viveu aquilo.

Ao mesmo tempo, o pesquisador revela que aplicou a mesma metodologia — gravação de memórias orais — no universo ferroviário, por influência do avô maquinista, e que também preservou dezenas de testemunhos de maquinistas, foguistas e operários da época do trem. Para Aderbal, ferrovia e cangaço se tornaram suas duas paixões — e os dois campos revelam a mesma urgência: registrar enquanto ainda há quem possa contar.

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