Os bastidores da política paraibana entraram em ebulição nos últimos dias e empurraram o presidente Lula para uma posição desconfortável na montagem do tabuleiro eleitoral de 2026 no estado. De um lado, acusações públicas envolvendo o uso de influência institucional para pressionar o Palácio do Planalto. De outro, cobranças explícitas por gestos de reciprocidade política. No meio disso tudo, Lula já tem um compromisso assumido: o apoio declarado à candidatura do governador João Azevêdo ao Senado.
A faísca mais recente partiu da senadora Daniella Ribeiro, que foi além do discurso protocolar e levou para a Rádio POP-FM uma denúncia de bastidor. Ela acusou o senador Veneziano Vital do Rêgo de usar o peso político do irmão, Vital do Rêgo Filho, presidente do Tribunal de Contas da União, como instrumento de pressão sobre o PT e sobre o próprio presidente da República, numa tentativa de assegurar apoio à sua reeleição. Trata-se de uma acusação grave, de difícil comprovação, mas que, ao ser feita publicamente, muda o clima do jogo político e eleva o tom da disputa interna pelo espaço ao Senado.
Enquanto isso…
A fala de Daniella não ocorre no vácuo. Há semanas, o ambiente político da Paraíba já vinha sendo marcado por sinais de tensão em torno do alinhamento do governo federal no estado. Em outro cenário, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, deixou claro que seu apoio político ao Planalto passa por gestos concretos de reciprocidade. Em bom português: apoio se constrói com apoio. Nos bastidores, essa reciprocidade é interpretada como a expectativa de um gesto de Lula em favor do nome do pai de Hugo, o prefeito de Patos, Nabor Wanderley, que também se movimenta como pré-candidato ao Senado.
Esses dois movimentos, embora distintos na forma e no tom, empurram Lula para uma sinuca de bico política. O presidente já declarou publicamente, mais de uma vez, que pretende apoiar João Azevêdo para uma das vagas ao Senado. Em eventos recentes, chegou a brincar com o governador, sugerindo que ele já está “com cara de senador”. O problema é que há duas vagas em disputa e vários atores poderosos tentando ocupar esse segundo espaço com o carimbo do Planalto.
Se as pressões descritas nos bastidores refletem minimamente a realidade, Lula se vê diante de um dilema nada trivial: manter coerência com a aliança que construiu com o atual governo da Paraíba, preservar pontes com o presidente da Câmara, figura central na governabilidade em Brasília, e, ao mesmo tempo, administrar o peso institucional do TCU, presidido por um paraibano que é irmão de um dos postulantes ao Senado.
Não se trata apenas de escolher nomes. Trata-se de administrar expectativas, evitar melindres e não transformar o apoio presidencial em moeda explícita de troca. Qualquer gesto mais brusco pode gerar fissuras com aliados estratégicos em nível nacional ou azedar o ambiente político local, onde o governo federal depende de articulação para tocar obras, destravar projetos e manter uma base minimamente coesa.
A encruzilhada de Lula na Paraíba expõe um traço clássico da política brasileira: o apoio presidencial é disputado como um troféu e, ao mesmo tempo, tratado como ferramenta de pressão. Navegar nesse ambiente exige mais do que discursos. Exige habilidade fina, leitura de cenário e, sobretudo, a capacidade de não transformar alianças em reféns de chantagens explícitas ou implícitas.