A polêmica da escala 6×1: compare a jornada dos deputados com a vida real do trabalhador
22/05/2026 05:48
Redação ON Reprodução

Enquanto milhões de brasileiros enfrentam a temida escala 6×1 – aquela rotina em que o trabalhador praticamente só conhece a própria casa pela foto da geladeira – o deputado federal paraibano Cabo Gilberto Silva, do PL, entrou no debate defendendo uma emenda que abriu brechas para jornadas ainda maiores.

A proposta em questão foi apresentada pelo deputado Sérgio Turra durante a discussão da PEC que pretende reduzir a jornada de trabalho no Brasil. Na prática, a emenda criava possibilidades para cargas semanais de até 52 horas e ainda empurrava por uma década qualquer redução efetiva da jornada. A repercussão foi tão negativa que líderes do Centrão pediram a retirada do texto antes que o estrago político fosse maior.

Cabo Gilberto, porém, afirmou que ninguém “afinou”. Segundo ele, a proposta servia apenas para “debater” e ainda não havia qualquer aprovação definitiva.

A “dura” rotina de um deputado

E é justamente aí que mora a ironia da história: em Brasília, o conceito de “jornada pesada” costuma ser um pouco diferente do resto do Brasil.

Na prática, o Congresso Nacional funciona numa espécie de escala premium. O grosso das votações acontece de terça a quinta-feira — uma modalidade de expediente que muitos trabalhadores brasileiros olhariam com lágrimas nos olhos e uma inveja silenciosa no coração.

Segunda e sexta, oficialmente, são destinadas ao chamado “trabalho de base”. Traduzindo para o português político: visitas, reuniões, entrevistas, agendas nos estados e aquela inevitável sequência de fotos apertando mãos, tomando café e prometendo soluções “em breve”.

No papel, parece uma rotina exaustiva. No relógio de quem bate ponto seis vezes por semana, talvez nem tanto.

Fazendo as contas do calendário legislativo, a matemática ajuda a entender o contraste. Entre recessos oficiais, feriados, sessões esvaziadas e o famoso “recesso branco” em anos eleitorais, deputados acabam concentrando boa parte do trabalho presencial em Brasília em cerca de três dias úteis por semana.

É claro que ninguém aqui vai cometer a injustiça de dizer que deputado não trabalha. Trabalha. Alguns mais, outros menos, outros só em época de eleição. Mas convenhamos: quando um parlamentar acostumado à “escala Brasília flex” aparece defendendo brechas para ampliar jornada de trabalhador comum, a internet dificilmente deixaria passar barato.

O problema da política brasileira talvez nem seja apenas a distância entre Brasília e o povo. Às vezes parece também uma diferença de calendário, de relógio e até de fuso horário trabalhista.

Enquanto o brasileiro da escala 6×1 luta para sobreviver esperando o domingo chegar, parte da classe política continua debatendo o tema entre uma sessão de terça e um embarque antecipado na quinta-feira à noite.

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