- Por Higor Maffei Bellini
Utilizar um esporte para melhorar a percepção do mundo sobre um determinado país, ou até mesmo determinado governante, é algo corriqueiro. Por isso, não me cria surpresa alguma o desejo de ser realizada a Copa do Mundo Feminina nesta região do globo, que vem gastando muito dinheiro para levar jogadores consagrados, de ambos os sexos, para atuar na região.
Desta maneira, nada mais previsível do que desejar levar, a hoje segunda competição feminina, mais importante. Creio que, para o futebol feminino, a Olimpíada ainda é a mais importante, entre nações.
Nada contra os países da região desejarem fazer a Copa do Mundo de futebol feminino lá.
Mas talvez não seja o melhor momento para isso, uma vez que, em razão de questões culturais, quando as mulheres que ali estejam para disputar a competição ou para acompanhar os jogos podem ter problemas para se deslocar até os locais dos jogos, ou apenas circular nas ruas das cidades.
As mulheres ocidentais que se mudam para a região, para companhia de seus maridos jogadores, reclamam da forma como são tratadas em sua vida cotidiana. E não estamos falando das esposas das jogadoras, que têm de deixar de ser apresentadas como esposas, para serem “amigas” para poderem acompanhar as companheiras. Mas das esposas dos jogadores do sexo masculino.
As atletas que se deslocarão para defender as suas seleções nacionais também podem sofrer complicações com o choque cultural que enfrentarão. Pois mesmo ficando em concentração e se deslocando para jogar apenas, já que os dias de folga em seleção estão rateando, para não falar que sumiram de vez. Em algum momento, poderiam ter problemas, quando foram da bolha criada pela família Fifa.
Essa bolha, que também pode ser chamada de padrão FIFA, com os países tendo de se submeter às regras impostas pela entidade máxima do futebol, não atinge a toda a população, ou seja, as atentas podem enfrentar problemas, sim. Quando fora dos hotéis e das áreas de competição.
Conversando com algumas clientes que atuam no futebol brasileiro e europeu, tenho a sensação de que elas não gostariam de ir disputar a competição nessa região, em razão, para elas, da falta de liberdade de poderem atuar e agir, como fariam outras localidades.
Elas sentem receio de serem desrespeitadas quando estiverem andando pelas cidades, bem como de terem as pessoas queridas de seus círculos de amizades ofendidas ou até mesmo agredidas.
Pelo simples fato de serem mulheres andando pelas ruas das cidades sede sozinhas, ou desacompanhadas dos integrantes da delegação.
Em matéria de cultura ou de comportamento, não existe certo ou errado, até porque esses conceitos são mudados ao longo do tempo e do espaço.
Devendo ser lembrado que é diferente ir jogar uma Copa do Mundo Feminina, onde a pessoa chega e vai embora logo, de quem foi jogar todo o campeonato nacional, onde se pode negociar com o clube condições mais favoráveis de moradia, alimentação e até transporte. E mesmo nessas condições, sei por conversar com algumas atletas, que não tem o interesse de ir as Arábias trabalhar, mesmo para receber muito dinheiro por não se sentirem confortáveis com a forma como podem ser tratadas.
Com todas essas ressalvas culturais, a Copa lá poderá acontecer, podendo até ajudar a ocidentalizar o tratamento dado às mulheres. Com isso, não quero dizer que a vida melhorará, já que, por não viver lá, não posso fazer juízo de valor a esse respeito de ser uma vida boa, ou não.
Como não vou falar que ajudará na questão dos direitos humanos das mulheres naquela localidade, posto que os direitos humanos devem ser respeitados independente de existir uma Copa do Mundo.
