Em 2014, no Brasil, a entidade praticamente exigiu a criação de um regime jurídico especial para atender aos interesses do torneio
A Copa do Mundo de 2026 corre o risco de entrar para a história não pelos gols, pelas zebras ou pelos grandes craques, mas pela submissão da FIFA a práticas que afrontam um dos princípios mais elementares do esporte: a igualdade de tratamento entre os participantes.
A entidade que, em outras épocas, não hesitou em impor exigências a governos soberanos, hoje assiste em silêncio a uma sucessão de episódios constrangedores nos Estados Unidos, país-sede do Mundial.
O caso mais recente envolve o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, impedido de entrar em território americano. Antes dele, o atacante iraquiano Aymen Hussein, um dos principais jogadores de sua seleção, foi submetido a sete horas de interrogatório ao desembarcar em Chicago. A seleção do Irã também enfrentou dificuldades logísticas e restrições que jamais seriam impostas a equipes de países considerados aliados ou integrantes do chamado mundo desenvolvido.
A pergunta é inevitável: será que um jogador da Alemanha, da Holanda ou da França passaria pelo mesmo tratamento? Até agora, os exemplos conhecidos apontam em outra direção.
O mais impressionante é o contraste com o comportamento histórico da FIFA. Em 2014, no Brasil, a entidade praticamente exigiu a criação de um regime jurídico especial para atender aos interesses do torneio. A chamada Lei Geral da Copa flexibilizou normas nacionais e provocou intensos debates jurídicos. O caso mais emblemático foi a autorização para venda de bebidas alcoólicas nos estádios, contrariando regras que já estavam incorporadas ao ordenamento brasileiro.
Naquele momento, a FIFA mostrou força suficiente para pressionar o Congresso Nacional e alterar leis internas de um país soberano. Hoje, porém, a mesma entidade parece incapaz de exigir garantias mínimas de tratamento igualitário para atletas, árbitros e delegações.
O futebol sempre foi apresentado como um território de igualdade. Dentro de campo, as regras são as mesmas para ricos e pobres, grandes e pequenos, europeus, africanos, asiáticos ou sul-americanos. Quando um atleta é tratado como suspeito em razão de sua origem, nacionalidade ou passaporte, não é apenas a pessoa que está sendo constrangida. É o próprio espírito do esporte que está sendo atacado.
A postura da FIFA revela uma fragilidade preocupante de sua atual direção. Sob o comando de Gianni Infantino, a entidade parece ter abandonado a firmeza que demonstrava quando suas exigências envolviam interesses comerciais. O silêncio diante dessas situações transmite uma mensagem perigosa: a de que alguns países podem impor barreiras e constrangimentos incompatíveis com a universalidade do futebol sem qualquer reação institucional.
Se a Copa do Mundo é realmente o maior evento esportivo do planeta, seus participantes deveriam ser recebidos com a mesma dignidade, independentemente da bandeira que carregam. Quando isso deixa de acontecer e a entidade organizadora prefere olhar para o lado, o torneio corre o risco de ser lembrado não pela celebração dos povos, mas pela normalização da discriminação.
E talvez essa seja a maior derrota que uma Copa do Mundo possa sofrer.