Na descida da Avenida Epitácio Pessoa, em frente ao Clube Cabo Branco, ficava uma das casas mais célebres da Paraíba. Quando João Pessoa ainda tinha poucas opções de hospedagem de alto padrão, os empresários Adrião e Creuza Pires abriam as portas de casa a quem vinha de fora. Por lá passaram os presidentes Castelo Branco e Costa e Silva, o cantor Roberto Carlos, o poeta Vinicius de Moraes, o músico Toquinho e o humorista Jô Soares. O filho mais velho do casal, Marcos Pires, tinha uma explicação para tamanha hospitalidade. Segundo ele, a casa tinha “apenas” nove suítes.
Quem trouxe essa história de volta foi o professor e historiador Emílio Figueiredo, mestre pela Universidade Federal da Paraíba. Em seu perfil no Instagram, o @emiliohistoriador, acompanhado por quase 40 mil seguidores, ele reconstituiu a trajetória da mansão. A postagem chega quando a Paraíba ainda sente a falta de Marcos. Advogado, cronista e um dos colunistas mais lidos do O Norte Online, ele morreu em 7 de outubro de 2026. Neste sábado, dia 7, completou-se um mês de sua morte.
A fortuna dos Pires começou a tomar forma atrás do balcão. Na crônica Os Pires caíram mas não quebraram, publicada em abril de 2024, Marcos contou que o pai havia se formado em Engenharia Química no Recife e viera a João Pessoa comunicar que aceitara um convite para trabalhar em Pernambuco. O avô Manoel Pires, que contava com o filho para tocar o comércio, disse que teria de fechar a loja. Foi ali que Adrião conheceu Creuza, a moça que trabalhava no caixa. Apaixonou-se e ficou em João Pessoa.
O casal fez dos Pires uma das famílias mais ricas da Paraíba nas décadas de 1960 e 1970. Todo mês de fevereiro, Adrião e Creuza iam a São Paulo e pagavam adiantado aos fabricantes pela mercadoria que venderiam ao longo do ano. Assim, conquistaram a distribuição exclusiva no estado de produtos como os utensílios Pirex, as pilhas Ray-O-Vac e os brinquedos Estrela. Para os filhos, o privilégio tinha uma medida bem concreta. Em abril, já brincavam com o autorama que só chegaria às lojas no Dia das Crianças.
A mansão acompanhou o movimento de uma capital que crescia em direção ao mar. Segundo o levantamento de Emílio, o projeto era de Carlos Alberto Carneiro da Cunha e Mário Glauco Di Láscio. Entre 1966 e a inauguração do Hotel Tambaú, em 1971, o endereço serviu como uma espécie de hotel de luxo informal da cidade. Em entrevista ao jornal A União, Marcos descreveu as paredes revestidas de jacarandá, o piso de mármore importado e um terraço de 200 metros quadrados.
A marca mais visível da fortuna do casal fora de casa foi o Gran Pires, loja de departamentos inaugurada em dezembro de 1974, nas proximidades da Lagoa. Uma de suas atrações era a primeira escada rolante da Paraíba, segundo o historiador. No fim daquela década, os investimentos na construção do Edifício Manoel Pires, os empréstimos bancários e a desvalorização cambial contribuíram para a crise que atingiu a família. Marcos, que estudava Economia no Rio de Janeiro, voltou à capital paraibana e ingressou no curso de Direito da UFPB.
Da antiga mansão da Epitácio, restaram fotografias e histórias que Marcos ainda ajudava a esclarecer. Nos comentários à sua crônica de 2024, um leitor quis saber se aquela era a casa onde Jô Soares dizia ter passado a noite em claro, ouvindo uma sinfonia de sapos. Marcos respondeu do jeito que os leitores do O Norte Online conheciam bem, com a risada já escrita no começo da frase. “Kkkkk foi lá em casa mesmo.”
