Enquanto o núcleo bolsonarista da Paraíba tenta tratar o escândalo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro como um assunto encerrado, a repercussão nacional aponta exatamente na direção oposta. Nesta segunda-feira, o deputado federal Cabo Gilberto Silva (PL-PB), um dos mais fiéis defensores do bolsonarismo no Nordeste, afirmou à imprensa local que o episódio envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse” já estaria “explicado e justificado”.
A declaração, porém, contrasta frontalmente com o ambiente de crise que o caso provocou nos bastidores de Brasília, onde lideranças do próprio PL já admitem reservadamente que o desgaste político atingiu níveis preocupantes.
Ao afirmar que “essa página virou”, Cabo Gilberto parece falar para uma bolha política própria, isolada da repercussão nacional, das análises eleitorais e até do desconforto interno do próprio partido.
Segundo o deputado paraibano, não existe qualquer ilegalidade comprovada.
“Tudo que tiver com relação a Flávio Bolsonaro e ao banqueiro do Banco Master com relação ao filme está explicado e justificado”, afirmou.
Mas o problema político para o PL já deixou de ser apenas jurídico. O impacto maior está na imagem pública construída pelo bolsonarismo ao longo dos últimos anos: o discurso de combate à corrupção e de intolerância com figuras investigadas.
E é exatamente aí que a crise se aprofunda.
O principal desgaste envolve a revelação de que Flávio Bolsonaro visitou pessoalmente Daniel Vorcaro, banqueiro investigado por fraudes bilionárias e que utilizava tornozeleira eletrônica por decisão judicial. A justificativa dada pelo senador — de que teria ido “encerrar o assunto” após descobrir a gravidade das denúncias — não convenceu sequer setores moderados do PL.
Nos bastidores de Brasília, estrategistas avaliam que a narrativa abriu novas contradições difíceis de sustentar.
Primeiro porque as investigações sobre o Banco Master já eram públicas quando ocorreram as negociações envolvendo o financiamento do filme. Segundo porque os áudios vazados indicam pressão pela liberação de recursos milionários para manter o projeto audiovisual sobre Jair Bolsonaro.

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O caso ganhou dimensão ainda mais explosiva após surgir a informação de que Vorcaro teria bancado mais de 90% do filme “Dark Horse”, projeto que exalta a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A situação ficou ainda mais delicada após a divulgação de áudios envolvendo o deputado Mário Frias (PL), agradecendo ao banqueiro pelo apoio financeiro.
O efeito cascata dentro do partido é justamente o que mais assusta a ala pragmática do PL.
O temor agora não é apenas eleitoral, mas também jurídico. Advogados ligados ao caso deixaram algumas defesas recentemente, enquanto informações de bastidores apontam discussões sobre possíveis acordos de delação premiada.
Além disso, pesquisas recentes já acenderam o sinal vermelho no bolsonarismo. Levantamentos nacionais mostram crescimento da rejeição de Flávio Bolsonaro justamente no Sudeste, principal reduto eleitoral do grupo político.
Enquanto isso, na Paraíba, Cabo Gilberto insiste no discurso de encerramento do caso.
“Se tiver algo de ilegal, que a Polícia Federal e o Ministério Público provem”, declarou.
A fala revela o tamanho do contraste entre a leitura local do deputado e o cenário nacional enfrentado pelo PL. Em Brasília, ninguém mais trata o caso como “página virada”. Pelo contrário: o partido trabalha nos bastidores tentando impedir que o episódio se transforme num símbolo permanente de desgaste político e moral do bolsonarismo em 2026.
