19 de abril junta adversários e lembra que, fora da data, o tema indígena some do debate
19/04/2026 18:09
Redação ON Reprodução

O Dia dos Povos Indígenas, neste 19 de abril, acabou funcionando como ponto de convergência política na Paraíba. Em Baía da Traição, no Litoral Norte, lideranças de diferentes vertentes dividiram o mesmo espaço em um evento que misturou agenda institucional, simbolismo cultural e movimentação pré-eleitoral.

Estiveram presentes o governador Lucas Ribeiro, o ex-prefeito de João Pessoa Cícero Lucena, o ex-governador Ricardo Coutinho e o ex-prefeito de Patos Nabor Wanderley. Lucas participou de entregas do governo, acompanhou rituais indígenas e discursou destacando a importância da valorização das comunidades originárias. Cícero acompanhou a programação mais discretamente, enquanto Ricardo e Nabor circularam entre aliados, trocaram cumprimentos e marcaram presença política no evento.

A cena teve seus recortes. Ricardo Coutinho e Cícero Lucena trocaram apertos de mão e abraços. Já Lucas Ribeiro não chegou a se encontrar diretamente com os dois. Nada que fuja ao padrão da política, mas suficiente para mostrar que, mesmo quando o ambiente é o mesmo, as distâncias continuam bem definidas.

Em publicação nas redes sociais, o governador destacou a entrega de sementes e insumos ao povo Potiguara como uma ação concreta de apoio às comunidades indígenas, ressaltando a importância de fortalecer quem vive da terra, produz o próprio alimento e preserva a cultura, além de afirmar que esse cuidado deve ser contínuo, com presença e parceria ao longo de todo o ano.

Mas o 19 de abril carrega um peso que vai além da movimentação política. É uma data que inevitavelmente puxa uma referência da cultura popular brasileira: a música “Todo dia era dia de índio”, eternizada na voz de Baby do Brasil, lançada em 1981.

A canção começa quase como uma cantiga, repetindo “todo dia era dia de índio”, para logo depois trazer uma imagem forte: antes da chegada do homem europeu, as terras brasileiras eram “habitadas e amadas” por milhões de indígenas, descritos como “proprietários felizes da terra Brasilis”. É um retrato que remete à origem, à presença histórica e à relação de equilíbrio com a natureza.

Mas é na virada da letra que está o ponto central — e incômodo. “Mas agora eles só têm o dia 19 de abril.” A frase, simples, atravessa décadas como uma crítica direta à forma como a pauta indígena aparece no debate público: intensa em um único dia, quase ausente no restante do ano.

E a própria música ainda aprofunda esse sentimento ao falar de um “canto triste”, como o lamento de um povo que já viveu outro tempo. Não é apenas nostalgia — é uma provocação que segue atual.

O que se viu em Baía da Traição foi importante. A presença de autoridades, os discursos e a participação em rituais mostram reconhecimento e respeito. Mas também reforçam uma percepção recorrente: a de que o protagonismo indígena ainda depende muito do calendário.

Entre encontros políticos, agendas oficiais e gestos simbólicos, o 19 de abril segue cumprindo seu papel. A questão que permanece, ecoando a música de Baby do Brasil, é outra: como fazer para que, no Brasil real, todo dia volte a ser, de fato, dia de olhar para os povos indígenas?

canal whatsapp banner

Compartilhe: