Totalitarismos não governam sozinhos. Governam em coro.
Não basta polícia. Não basta decreto. Não basta líder carismático. É preciso atmosfera. E atmosfera é aquilo que se respira sem perceber.
Nenhum regime dessa natureza nasce completo. Ele se compõe. Primeiro muda o clima. Depois mudam as palavras. Em seguida, as instituições. Quando se percebe, a exceção já virou rotina.
Em A Sagração da Primavera, Modris Eksteins mostrou que o século XX não tropeçou no autoritarismo por acidente. Havia, na cultura europeia anterior a 1914, um cansaço da moderação liberal e uma sede de intensidade. Parte da intelligentsia viu na guerra uma purificação. Ernst Jünger descreveu o combate nas trincheiras como experiência formadora, quase estética.
A ruptura tornou-se virtude.
Quando o nazismo surgiu, encontrou terreno preparado.
A normalização do absurdo é regra atemporal das tiranias. É preciso arar o terreno antes da plantação.
Em LTI – A Linguagem do Terceiro Reich, Victor Klemperer mostrou que regimes autoritários conquistam primeiro a língua. Oposição vira doença. Exclusão vira higiene. O jornal oficial do partido repetia até banalizar. Sob a coordenação de Goebbels, a propaganda não precisava convencer; precisava habituar.
Quando a palavra muda, o pensamento já se inclina.
É o papel dos adjetivos nas redes sociais contemporâneas: substituir os substantivos – e não os qualificar. Ou, como se diz nelas, acusar o outro daquilo que se pratica, até que a acusação funcione como vacina moral imunizando a própria conduta.
A universidade ofereceu fundamento. Em Hitler’s Professors, Max Weinreich mostrou como juristas como Carl Schmitt e filósofos como Martin Heidegger aderiram ao novo regime. Médicos legitimaram a eugenia. Historiadores forneceram mitos nacionais.
O saber não foi esmagado. Foi instrumentalizado.
Quando a educação perde sua função crítica-funcional, transforma-se em posto de distribuição do vício daobediência. Há uma espécie de “Magister Dixit” renovada– por cumplicidade. O que não cobra a disciplina que ensina, ensina o que quer do indisciplinado.
A imprensa organizou o cotidiano. Estudos clássicos demonstraram como jornais foram alinhados e coordenados. O grupo de Alfred Hugenberg apoiou decisivamente a ascensão nazista.
Não era silêncio absoluto. Era direção editorial.
A dependência da notícia ao Estado corrói não apenas o conteúdo, mas a forma. A chamada verdade editorial — ou pré-verdade — choca-se com a verdade das redes — ou pós-verdade. Uma depende do poder. A outra, da narrativa. Os fatos tornam-se circunstanciais, órfãos de uma verdade viva.
Excluído da notícia o interesse estritamente pessoal, não lhe resta mais uma palavra. É a notícia encomendada – por amizade ou gratidão, quando não apenas preço.
E há ainda a arte.
Nenhuma tirania se sustenta apenas com polícia, tribunais e decretos. Ela precisa de forma, de imagem, de ritmo. A força, para durar, precisa parecer bela.
Na Alemanha, o cinema de Leni Riefenstahl transformou o partido em coreografia monumental; a arquitetura de Albert Speer elevou o Estado à escala da eternidade; Heinrich Hoffmann moldou o rosto do líder em imagens cuidadosamente encenadas; a massa uniformizada tornou-se escultura viva. O indivíduo dissolvia-se na forma.
Na Itália, o futurismo de Marinetti celebrou a guerra como higiene do mundo; D’Annunzio antecipou o político-performer; e Giovanni Gentile forneceu a base teórica do Estado fascista, convertendo a política em liturgia pública.
Na União Soviética, o realismo socialista modelou trabalhadores heroicos e soldados invencíveis. O regime não queria apenas obediência; queria representação épica da obediência. Na China de Mao, cartazes e iconografia transformaram o líder em figura quase solar, irradiando verdade e disciplina. Em ambos, os assassinatos e degredos não eram vistos.
Em Cuba, murais fixaram a revolução como imagem permanente. Na Venezuela, a iconografia do líder perpetuou-se em slogans e retratos monumentais. A fome e o autoexílio de grande parte da população não interessam.
O mecanismo é o mesmo: quando o poder se concentra, também concentra símbolos. Quando captura instituições, captura o imaginário. E quando captura o imaginário, a violência deixa de parecer imposição e passa a parecer destino.
Quando a arte passa a depender integralmente do poder e da política, corre o risco de confundir beleza com orçamento.
Não por acaso, Caetano Veloso lembraria, em entrevista no livro 1968: O que fizemos de nós, Ventura, que a ideia de que “tudo é política” carrega um ranço perigoso: quando a vida inteira se torna trincheira, desaparecem o silêncio, a intimidade e até a misericórdia. Os regimes totalitários do século XX mostraram o preço disso — até crianças foram ensinadas a delatar vizinhos e pais em nome de uma causa maior. Onde tudo é política, nada mais é humano.
A estética não é ornamento da tirania. É sua moldura.
O Judiciário deu forma. Ingo Müller demonstrou que muitos magistrados permaneceram nos cargos e aplicaram as novas leis com zelo ampliado. O Tribunal do Povo transformou julgamento em rito. Inquéritos de fogueira ardiam seus papéis – apenas como álibi; muitas vezes como intimidação ou desmoralização pública de pessoas que, simplesmente, opinavam.
E a violência vestiu toga.
O Judiciário nasceu como refúgio da cidadania contra o poder; não como extensão dele. Quando se desprendeu do rei, sugeriu garantia da liberdade. Se retorna à órbita do poder — sob qualquer discurso — descaracteriza-se.
O jornal fundado por Mussolini organizou narrativa e mobilização: a política tratou-se como espetáculo.
Na Espanha de Franco, a narrativa foi cruzada moral.
Na França de Pétain, a colaboração foi administrativa.
No Brasil, o integralismo construiu estética própria, e o Estado Novo organizou narrativa oficial sob o argumento da ordem; assim como se repetiu a partir de 1964.
E não foi diferente em regimes que se reivindicaram de esquerda. A União Soviética sob Stalin, a China sob Mao, Cuba sob partido único, a Venezuela e a Nicarágua sob hegemonia prolongada — todos reproduziram o mesmo mecanismo: concentração extrema de poder, captura institucional, controle narrativo, subordinação do Judiciário, vigilância e eliminação sistemática da dissidência.
Essas tiranias se apresentaram como redenção social e foram, por muito tempo, glamourizadas por intelectuais influentes de suas épocas. A União Soviética foi vista como promessa de justiça histórica. Apenas após o discurso de Khrushchev, em 1956, denunciando os crimes de Stalin, abriu-se uma fissura mais visível nessa narrativa.
Cuba, por exemplo, passou a ser vista como o único paraíso de onde anjos e santos querem fugir e para onde os devotos não querem ir.
Raymond Cartier narra um episódio curioso envolvendo a filha de Mussolini e a troca de moedas em meio à guerra, sinal de que, mesmo sob discursos épicos, a corrupção distribuía metástases no corpo oficial — e de que o próprio monstro não sente o odor fétido do seu vômito.
As narrativas atuais que pretendem fragmentar o tecido social em camadas babélicas perdem o sentido pentecostal da vida, apenas para não enfrentar a imensa maioria,calma e silenciosa, que mantém o cotidiano.
Mudam os hinos, as cores e as bandeiras, mas não muda a engenharia.
Borges percebeu isso cedo. Em Deutsches Requiem, um oficial nazista à espera da execução não se arrepende. Afirma que a Alemanha pode ter perdido a guerra, mas venceu ao ensinar o mundo a abandonar a piedade. Não importando os que seriam o martelo e a bigorna.
Ali está o efeito mais profundo da tirania: não apenas a violência, mas a substituição da compaixão pela lógica da força.
E mais grave é saber que as tiranias criam para si as oposições que desejam por simetria: os discursos do contrário cancelam os projetos e baseiam os novos governos. Até a memória crítica é uma forma de manteressa relação perniciosa.
No fundo, todas essas experiências revelam o mesmo fenômeno.
Quando o poder se concentra além de qualquer freio, quando absorve imprensa, domestica universidades, submete tribunais e transforma arte e linguagem em instrumento, ele atinge densidade extrema.
E poder em densidade extrema comporta-se como um buraco negro. Tudo gravita em torno dele:
a narrativa oficial,
a interpretação jurídica,
a produção cultural,
a memória histórica.
Nada escapa ao seu campo de força — nem mesmo a luz da crítica.
No início, parece ordem.
Depois, eficiência.
Em seguida, unidade.
Por fim, silêncio.
Porque onde a luz não escapa, também não floresce pluralidade.
Talvez a Quaresma seja tempo oportuno para interromper o canto e recuperar a respiração.
A pergunta decisiva não é quem canta mais alto. É quem ainda pode cantar diferente. Não existirá isonomia sem diferenças. Aliás: não existirá vida sem diferenças.
Enfim, a tecnologia é: estabelecer o caos para propor um cosmos, ou, na expressão do cancioneiro aos desavisados: “…saibam que deixam o céu, por ser escuro, e vão ao inferno à procura de luz.
Ditadura não é apenas o que se vê. É o que todos temem — mesmo quando ninguém ousa dizer:
Nunca Mais!
