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Morreremos muito melhorados

Se o cidadão rico chegar morto no hospital Sírio, eles ainda dão um jeito do cabra sobreviver uns sessenta dias
  • Por Marcos Pires

     Tudo começou quando descobri que o famoso medicamento Mertiolate não arde mais. Como assim? Sou do tempo em que quando íamos passar aquele pedaço de inferno num arranhão necessitávamos de duas pessoas para soprarem. Foi então que me dei conta de como os cuidados com nossa saúde estão evoluindo.

    Antigamente quando tínhamos qualquer distensão comprávamos na farmácia o emplastro Sabiá. Era crença generalizada de que à medida que o adesivo ia descolando a dor passava. Hoje em dia eu imagino que deveria haver impregnado no emplastro um produto magico misteriosos que sugava a dor; só pode, né? Mas então num determinado momento descobrimos os osteopatas e os emplastros perderam sua fama. Converso muito com um amigo que é considerado internacionalmente como dos mais competentes na especialidade e um dia perguntei a ele se aquelas fitas coloridas que os atletas colocam em cima dos músculos dos braços e pernas (principalmente os que jogam vôlei) eram parentes – quem sabe primas – do antigo Sabiá e se realmente funcionavam. Ele deu uma gargalhada e respondeu: “- Para quem acredita funcionam”. Não sei porque lembrei da pena que o elefante Dumbo carregava na tromba quando precisava voar.

    Longe vai o tempo em que as cirurgias eram feitas por barbeiros cirurgiões sem o uso de anestesia. Até hoje imagino a dor de um paciente que à época tivesse que se submeter a uma corriqueira operação de catarata. A técnica usada era simples; cinco homens muito fortes seguravam o (im)paciente e tome-lhe faca de olho adentro. Às vezes até dava certo. Aliás, uma leitura bem interessante é sobre a medicina praticada naquele tempo. No Oriente, onde os mais famosos médicos da época praticavam seu oficio (como al-Juzjani e Ibn Sina, conhecido como Avicena e considerado o mais importante medico da idade média) a religião simplesmente proibia qualquer intervenção que viesse a cortar o corpo humano, mesmo que só para estudar cadáveres. O tratamento era feito à base de compressas e misturas de raízes e folhas.

    Mas voltemos aos progressos atuais da arte de curar. No meu caso tive que perder 35 quilos por conta de umas enxeridas hernias de disco. Há dez anos consegui a façanha graças a muito exercício e um regime alimentar onde todas as comidas preparadas por uma tal alguma coisa gourmet tinham o mesmo gosto; do camarão ao file, passando por frango e lagosta tudo só lembrava papelão. Porém consegui e até hoje mantenho o peso. Pra que isso tudo se inventaram o Ozempic e o Xigduo?

    Por isso é que acredito num futuro onde morreremos muito melhorados. Expus essa tese aos luminares que participam do café da manhã na padaria Bonfim. O cientista Z. saiu-se com essa: “- Dr. Marcos, já é assim hoje em dia. Se o cidadão rico chegar morto no hospital Sírio, eles ainda dão um jeito do cabra sobreviver uns sessenta dias”.

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Marcos Pires

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